


LUIS FERNANDO 
VERSSIMO

ED MORT E OUTRAS HISTRIAS
       
       
       
       
       Luis Fernando Verssimo, 1979.
       
       
       
       
       
       
    A armadilha
       
       
       Meu nome  Mort. Ed Mort. Sou detetive particular. Pelo menos isso  o que est escrito numa plaqueta na minha porta. Estava sem trabalho h meses. Meu ltimo 
caso tinha sido um flagrante de adultrio. Fotografias e tudo. Quando no me pagaram, vendi as fotografias. Eu sou assim. Duro. Em todos os sentidos. O aluguel da 
minha sala ? o apelido que eu dou para este cubculo que ocupo, entre uma escola de cabeleireiros e uma pastelaria em alguma galeria de Copacabana ? estava atrasado. 
Meu 38 estava empenhado. Minha gata me deixara por um delegado. A sala estava cheia de baratas. E o pior  que elas se reuniam num canto para rir de mim. Mort. Ed 
Mort. Est na plaqueta.
       Eu tinha sado para ver se a plaqueta ainda estava no lugar. Nesta galeria roubam tudo. Abriram uma firma de vigilncia particular do lado da boutique de 
bolsas e ns pensamos que a coisa ia melhorar. A firma foi assaltada sete vezes e se mudou. Voltei para dentro da sala e me preparei para ler o jornal de novo. Era 
uma quinta e o jornal era de tera. De 73.
       Havia uma chance de o telefone tocar. Muito remota, porque ele estava desligado h dois meses. Falta de pagamento. As baratas, pelo menos, se divertiam. Foi 
quando ela entrou na sala.
       Entrou em etapas. Primeiro a frente. Cinco minutos depois chegou o resto. Ela j tinha comeado a falar h meia hora, quando consegui levantar os olhos para 
o seu rosto. Linda. Tentei acompanhar a sua histria. Algo sobre um marido desaparecido. Pensei em perguntar se ela tinha procurado bem dentro da blusa, mas ela 
podia no entender. Era uma cliente. Ofereci a minha cadeira para ela sentar e sentei na mesa. Primeiro, para poder olhar o decote de cima. Segundo, porque no tinha 
outra cadeira. Ela continuava a falar.
       O marido tinha desaparecido. Ela no queria avisar a polcia para no causar um escndalo. De olho na sua blusa, perguntei:
       ? O que vocs querem que eu faa?
       ? Vocs?
       ? Voc. A senhora.
       Ela queria que eu investigasse o desaparecimento. Me deu uma fotografia do marido. Nomes. Endereos. Amigos dele. O lugar onde ele trabalhava. Alguma pergunta?
       ? Preciso ser indiscreto. Pense em mim como um padre.
       Ela fez um esforo, mas acho que no conseguiu. Mas me mandou continuar.
       ? Vocs se davam bem? No tinham brigado?
       Ela baixou os olhos. Por alguns minutos, ficamos os dois olhando para a mesma coisa. A ela confessou que o marido no a queria mais. Tinha hbitos estranhos. 
Gostava de coisas exticas.
       ? Sexualmente falando, entende? ? disse ela, falando sexualmente.
       Pensei em dizer que, se ela aceitasse um similar, no precisava procurar mais. Eu estava ali, e a queria. Mas precisava do dinheiro. No daria essa alegria 
s baratas. Comecei a investigao. Mort. Ed Mort. Est na plaqueta.
       No foi difcil descobrir que o marido a enganava regularmente. Todos os amigos dele tinham histrias para contar. E todos terminavam a histria sacudindo 
a cabea e dizendo a mesma coisa: "E isso com o mulhero que ele tem em casa..." Me contaram que ele tinha comeado a freqentar massagistas.
       ? Massagistas?
       ? Voc sabe. Essas que anunciam nos jornais...
       Era uma pista. Empenhei minha coleo de Bic e comprei um jornal do dia. Comecei com "Tnia, fao de tudo" e terminei com "Jussimar, banhos de leo e frico 
musical". Duas semanas de investigao diria. Me fingia de cliente. Pagava tudo. Como Linda ? minha cliente se chamava Linda ? no me deu nenhum adiantamento, tive 
que vender tudo. A mesa. A cadeira. Tudo. Finalmente assaltei a pastelaria. Eu sou assim. Quando pego um caso vou at o fim.
       S faltava um nome na minha lista de massagistas. "Satisfao garantida. Tcnicas turcas e orientais. Sandrinha Dengue-Dengue." Era uma casa. Na frente, um 
vestbulo e uma recepcionista. Entrei arrastando os ps. As duas semanas de investigao tinham exigido muito de mim. (Mort. Ed Mort. Est na plaqueta.) A recepcionista 
perguntou se eu estava ali para a massagem. Pensei em responder que no; que estava ali para rearmamento moral. Mas respondi que sim. Que espcie de massagem?
       ? Tudo o que eu tenho direito. Tcnicas turcas e orientais. Um completo. A Sandrinha saber o que fazer.
       A recepcionista sorriu, apertou um boto na sua mesa, e um alapo se abriu sob os meus ps. Cai num poro infecto. Em cima de algum, que desmaiou. O poro 
estava cheio. Depois de me acostumar com a escurido, olhei em volta. S havia homens. O que era aquilo? Em resposta, s ouvi gemidos. Finalmente, algum se animou 
a falar. Todos tinham vindo quele endereo atrs da Sandrinha Dengue-Dengue. E todos tinham cado pelo alapo.
       ? Mas por qu?
       ? No sei ? respondeu um dos homens, que pela barba e o desnimo j estava ali h dias. ? Mas de hora em hora, toca uma marcha e uma mulher comea a nos xingar 
pelo alto-falante. Nos chama de machistas, de porcos chovinistas, de exploradores de mulheres, de sexistas.
       ? J sei.  uma armadilha feminista!
       Os outros concordaram com gemidos. Era uma armadilha perfeita. Quem vinha ver a Sandrinha Dengue-Dengue no dizia nada para ningum. Desaparecia e ningum 
saberia onde procurar. Perguntei pelo marido da Linda. Chamei seu nome. Nada. Algum lembrou que podia ser o cara que estava embaixo de mim, desmaiado. Eu o acordei. 
Era ele mesmo. Dei-lhe um soco que o fez dormir de novo. O safado me fizera cair na armadilha. E com o mulhero que tinha em casa!
       Passei uma semana no poro, sentado na cabea do safado. Eu sou assim. Sem comer nada, mas j estava acostumado. E sendo catequizado de hora em hora. No fim 
de uma semana nos soltaram, com ordens de nunca mais procurar massagistas e no dizer nada para ningum, seno nossos nomes seriam publicados, mulheres e filhos 
ficariam sabendo. Que nos servisse de lio.
       Devolvi o marido para Linda. Na despedida ainda lhe dei um tapa na orelha. Linda me olhou feio. As baratas apontam para mim e rolam de tanto rir. Linda no 
me pagou. Na minha sala agora s tem o telefone e o jornal de 73, no cho. Mort. Ed Mort. Est na plaqueta. E roubaram a plaqueta.
       
       
       
       
       
    Por pouco
       
       
       Eu estava a ponto de escrever alguma coisa sobre as pessoas que esto a ponto de tomar uma atitude definitiva e recuam ? e recuei. Ia escrever sobre os que 
um dia, por pouco, quase, ali-ali, estiveram prestes a mudar sua vida mas no deram o passo crucial, mas no vou. Pena e comiserao para os que no deram o passo 
crucial.
       Pena e comiserao para os que preferiram o pssaro na mo. Para os que no foram ser os legionrios dos seus primeiros sonhos. Para os que hesitaram na hora 
de pular. Para os que pensaram duas vezes. Pena e comiserao para os que envelheceram tentando decidir o que iam ser quando crescessem. E para os que decidiram, 
mas na hora no foram.
       Alguns passam a vida acompanhados pelo que podiam ter sido. Por fantasmas do irrealizado. Um cortejo de ressentimentos. Este aqui sou eu se tivesse decidido 
fazer aquele curso em Paris. Este outro sou eu se tivesse chegado um minuto antes no vestibular...
       Olha que bom aspecto eu teria se tivesse aceito aquela nomeao. Veja o bigode. O corte decidido do cabelo. O olhar de quem  firme, mas justo com subalternos. 
A cintura ajustada. As mos que no tremem. Elas me seguem por toda a parte, as minhas alternativas.
       Voc conhece muitos assim. Gente que cultiva suas oportunidades perdidas como outros guardam o prprio apndice num vidrinho. E no perdem oportunidade de 
contar como foi a oportunidade perdida.
       ? Foi num jogo de pquer. Tinha dois pares e no joguei. Quem ganhou tinha s um. A melhor mesa da noite. Milhes. Eu, hoje, seria outro.
       ? Fiz uma ponta naquele filme do Tarz, mas cortaram a minha parte. Se tivessem me visto em Hollywood...
       ? Se eu tivesse dito sim...
       ? Se eu tivesse dito no...
       ? Se mame no tivesse interferido...
       ? Uma vez fui fazer um teste no Fluminense. Abafei. Mas a famlia foi contra. Insistiu com a contabilidade. Eu, hoje, seria outro.
       ? J tive a minha poca de escritor, t sabendo? Uns contos at razoveis. Mas nunca me mexi. Hoje eles esto numa gaveta, sei l.
       ? Voc sabe que s no me elegi deputado, porque no quis?
       ? Eu, hoje, podia ser at primeiro-violino.
       ? Tudo porque eu no sa daqui quando devia. Pena e comiserao para os que no saram daqui quando deviam. H quem diga que o passo crucial s pode ser dado 
uma vez e nunca mais. Tem a sua hora certa, e ela no volta. Bobagem, claro. Mas no para os que tiveram a sua hora e no aproveitaram. Os mrtires do por pouco.
       ? Sei exatamente quando foi que eu tomei a deciso errada. Foi numa noite de Ano-Bom.
       Voc j ouviu a histria vrias vezes. Mas no pode impedi-lo de falar. O nico divertimento que lhe resta  o que ele poderia ter sido. Os que no deram 
o passo crucial quando deviam esto condenados ao condicional. E tm a volpia da prpria frustrao.
       ? Se eu tivesse aproveitado... Ela estava gamada. Gamadona. Filha da segunda fortuna do Brasil.
       Da ltima vez que voc ouviu a histria, era a terceira fortuna do Brasil, mas tudo bem.
       ? Bobeei e babaus. Hoje, quando eu penso... 
       Voc tenta ajudar.
       ? Podia no ter dado certo. O pai dela no ia deixar. Um morto-de-fome como voc...
       ? Morto-de-fome, porque eu no dei o passo crucial na hora que me ofereceram aquele negcio no Mato Grosso. Ia dar um dinheiro.
       ? Mas se voc fosse para o Mato Grosso, no teria conhecido a menina na noite de Ano-Bom.
       ? Pois . Agora  tarde. Sei l.
       Agora  tarde. As decises erradas so irrecorrveis. Voc o imagina cercado das suas alternativas. De um lado, casado com a, v l, primeira fortuna do Brasil. 
O ltimo homem do Rio a usar echarpe de seda. Grisalho, mas ainda em forma com aquele tom de pele que s se consegue passando o dia na piscina do Copa, mas na sombra. 
Do outro lado, o prspero fazendeiro do Mato Grosso que pilota o seu prprio avio e tem rugas em torno dos olhos de tanto procurar o fim das suas terras no horizonte, 
ou de tanto rir dos pobres. E no meio, ele, a ponto de lhe pedir dinheiro emprestado outra vez. Triste, triste. Eu ia escrever uma boa crnica sobre tudo isso. Mas 
o assunto me fugiu, perdi a hora certa. Agora  tarde.
       
       
       
       
    A aposta do baro
       
       
       Quem dentre vs nunca sonhou em criar o seu prprio agente secreto ingls que atire o primeiro James Bond. Certa vez, pensei em inventar um superagente brasileiro, 
Jaime Alguma Coisa, e escrever suas aventuras no mundo da intriga internacional, mas no deu certo. Por alguma razo, sempre que eu comeava a descrev-lo, saa 
um tipo magro, baixo, orelhudo, de bigodinho, o nico no departamento a torcer pelo Amrica, e que enjoava em avio. Sua classificao de 00664853 barra 7 lhe permitia 
andar armado, virar a gola do seu impermevel para cima e fazer um lanche por dia  custa do departamento, com comprovante. Na primeira pgina da primeira aventura 
que imaginei para ele, o chefe da espionagem, seu superior, examina o dossi de um caso dificlimo que tem  sua frente, morde a haste do cachimbo e decide: "Este 
 um caso para o Jaimito". Parei a mesmo. Nada de muito srio ? e certamente no aquele caso de espionagem atmica, envolvendo a prpria sobrevivncia do pas, 
alm de 17 anes iugoslavos e uma falsa condessa ? podia ser confiado ao Jaimito. Alm disso, a sua arma secreta, um isqueiro com 64 utilidades diferentes, todas 
mortferas, falhava at para acender cigarro. Desisti do Jaimito. Agente secreto ingls tem que ser ingls. Como este que acabei de criar.
       Peter Vest-Pocket encurtou a Segunda Guerra Mundial em oito meses ("e trs dias", acrescenta ele, com caracterstica ateno ao detalhe), quando decifrou 
para os Aliados os cdigos do Alto-Comando alemo ? embora tivesse s cinco anos incompletos na ocasio. Seu sorriso enigmtico foi responsvel por 10 tentativas 
de suicdio em todo o mundo, nove mulheres e um bailarino russo que engoliu a prpria sapatilha.  a maior autoridade mundial em peixes tropicais, manuscritos medievais 
da Europa Central e a vida de Mae West. Suplementa o seu salrio do governo jogando pquer, no qual desenvolveu um mtodo infalvel para ganhar sempre: trapaceia.
       Foi no famoso salo cor-de-vmito, o Puke Room do Harbinger's em Londres, onde voc s entra apresentando ao porteiro uma nota assinada pelo Secretrio do 
Tesouro da Inglaterra, de preferncia de mil libras, que Vest-Pocket viu-se, certa noite, frente a frente com o nico homem no mundo que temia: o Baro Guy de la 
Recherche. Na mesa, estavam ainda um gordo ex-ministro venezuelano que suava muito, um Emir rabe com culos to escuros que precisava de um secretrio para lhe 
dizer que cartas tinha na mo e o rei das batatas chips dos Estados Unidos. Mas Vest-Pocket os ignorou. Seu adversrio era de la Recherche.
       Recostado na cadeira com a mo direita erguida ao lado do rosto, segurando um dos charutos que Fidel lhe mandava semanalmente com aborrecidos bilhetes cheios 
de admirao juvenil, Vest-Pocket jogava displicentemente com a mo esquerda. S variava a posio quando dava as cartas e a prendia o charuto entre os dentes e 
usava as duas mos para embaralhar, servir a mesa e tirar cartas da manga quando a situao o exigisse. Periodicamente, levava  boca um copo de aguardente feito 
especialmente para ele, na Bolvia, com a saliva de jovens ndias que mascavam a raiz sagrada do Peote ? e duas gotas de Beneditino.
       s quatro horas da madrugada, tendo mantido o jogo razoavelmente equilibrado at ali para no espantar ningum, Vest-Pocket viu a sua chance. O Baro, que 
sempre passava um dedo pelo seu afilado nariz quando tinha um bom jogo nas mos, esfregava o nariz como nunca. E o secretrio que lia as cartas para o Emir acabara 
de segredar alguma coisa no ouvido do seu mestre que o fizera sorrir, quase imperceptivelmente. O venezuelano e o americano estavam de fora. Chegara a hora. Tudo 
dependia daquela jogada. Vest-Pocket dava as cartas.
       O Baro no quis cartas. O Emir pediu uma, que obviamente o agradou. Peter descartou duas e tirou da manga as duas que faltavam para o seu Royal Street Flush.
       O Emir no tinha fichas suficientes para apostar e colocou na mesa um cheque de 100 mil libras.
       "Suas 100", disse o Baro, tirando um livro de cheques do bolso, "e mais 100."
       "As suas 200", disse Peter, "e mais 400,"
       "As suas 600", disse o Emir, "e mais o nmero da minha conta na Sua e uma autorizao para sacar tudo ...
       ? "No aceitamos hipteses, queremos cifras", disse Peter, com tamanha autoridade que o Emir no disse outra palavra. "Baro?"
       "As suas 600..." comeou o Baro, "e o que voc quiser, meu amigo. Minha propriedade no Loire? A minha ilha nas Carabas? Meus cavalos na Argentina? Diga 
voc." 
       "Quero a sua receita de mousse de salmo."
       "O qu? Impossvel.  um segredo de famlia. Ningum mais a conhece. O meu prato supremo."
       Exatamente, pensou Peter Vest-Pocket. Enquanto o Baro de la Recherche detivesse o segredo daquela mousse de salmo, ele, Peter, no podia se considerar o 
melhor cozinheiro amador do mundo. Com a receita da mousse de salmo, ele seria imbatvel. No precisaria mais temer a reputao de ningum. Sem tirar os olhos dos 
olhos do Baro, Peter falou:
       "Aumente a parada, pague para ver ou silencie para sempre. Se eu ganhar, quero a receita da mousse dentro de 48 horas, pois pretendo receber algumas pessoas 
para jantar."
       (Ao leitor decepcionado com a falta de ao, violncia e intriga internacional explico que esta  s a primeira cena. Os 17 anes iugoslavos e seus exticos 
mtodos de matar o inimigo a ccegas entram depois.) 
       
       
       
       
       
    Caso de divrcio (I)
       
       
       O divrcio  necessrio. Todos conhecem dezenas de casos que convenceriam at um arcebispo. Eu mesmo conheo meia dzia. Vou contar uns trs ou quatro.
       O nome dele  Morgadinho. Baixo, retaco, careca precoce. Voc conhece o tipo. No carnaval se fantasia de legionrio romano e no futebol de praia d pau que 
no  fcil. Freqenta o clube e foi l que conheceu sua mulher, mais alta do que ele, morena, linda, as unhas do p pintadas de roxo. Na noite de npcias, ele lhe 
declarou.
       ? Se voc algum dia me enganar, eu te esgoelo.
       ? Ora, Morgadinho...
       Ela se chama Ftima Araci. Ou  Mara Sirlei? No, Ftima Araci. No  que ela no goste do Morgadinho,  que nunca prestou muita ateno no marido. Na cerimnia 
do casamento j dava para notar. O olhar dela passava dois centmetros acima da careca do Morgadinho. Ela estava maravilhada com o prprio casamento e o Morgadinho 
era um simples acessrio daquele dia inesquecvel. Como um castial ou um coroinha. No lbum de fotografias do casamento que ela guardou junto com a grinalda, h 
esta constatao terrvel: o Morgadinho no aparece. Aparece o coroinha mas no aparece o Morgadinho.
       Um ou dois meses depois do casamento, o Morgadinho sugeriu que ela lhe desse um apelido. Um nome secreto, carinhoso, para ser usado na intimidade, algo que 
os unisse ainda mais, sei l. Ela prometeu que ia pensar no assunto. O Morgadinho insistiu.
       ? Eu te chamo de Faf e voc me chama de qualquer coisa.
       ? Vamos ver.
       Uma semana depois, Morgadinho voltou ao assunto.
       ? J pensaste num apelido para mim, Faf?
       ? Ainda no.
       Trs semanas depois, ele mesmo deu um palpite.
       ? Quem sabe Momo?
       ? No.
       ? Gag? Fofura? ? Tomou coragem e, rindo meio sem jeito, arriscou:
       ? Tigre?
       Ela nem riu. Pediu que ele tivesse pacincia. Estava lendo o Stimo Cu. Tinha tempo.
       O Morgadinho no desistiu. s vezes, chegava em casa com uma novidade.
       ? Que tal este: "Barrilzinho"?
       ? No gosto.
       Outra vez, os dois estavam passando por um quintal e ouviram uma criana chamando um cachorro.
       ? Pitoco. Vem, Pitoco.
       Morgadinho virou-se para a mulher, cheio de esperana, mas ela fez que no com a cabea.
       Finalmente (passava um ano do casamento e nada de apelido), Morgadinho perdeu a pacincia. Estavam os dois na cama. Ela pintava as unhas do p.
       ? Voc no me ama.
       ? Ora, Morgadinho...
       ? At hoje no pensou num apelido para mim.
       ? Est bem, sabe o que tu s? Um xaropo. Ta teu apelido. Xaropo.
       O Morgadinho j tinha enfrentado vrias levas de policiais a tapa. Uma vez desmontara um bar depois de um malentendido e sara para a rua dando cadeiradas 
em meio mundo. Homens, mulheres e crianas. Mas naquela noite virou-se para o lado e chorou no travesseiro.
       A a mulher, com cuidado para no estragar o esmalte, chegou perto do seu ouvido e disse, rindo:
       ? Xaropozinho... ? Rindo. Rindo!
       
       
       
       
    
    O mundo restaurado
       
       
       O pai ganha os presentes que um pai costuma ganhar. Camisas, lenos, uma gravata muito parecida com a que deu para algum no ano passado, meias. Alguns livros, 
alguns vinhos. Mas fica de olho nos presentes das crianas. Com o ar condescendente de quem tem um saudvel interesse nas atividades dos filhos. Mas louco de inveja.
       ? Meu filho. Um Autorama!
       ? , pai.
       ? Vamos armar agora mesmo!
       ? Agora no, pai. Amanh, a gente arma.
       ? Amanh, nada. Agora! Arreda essa papelada pra l. Aqui na sala mesmo tem lugar.
       A me intervm. 
       ? Voc est louco? Armar esse negcio no meio da sala, no meio da festa?! E as crianas precisam ir dormir. Foi excitao demais para um dia s.
       O pai fica olhando com ressentimento o Autorama que desaparece da sala embaixo do brao do guri. Pensa, vagamente, em seguir o filho e propor uma barganha. 
Escuta, a me no est nos ouvindo. Eu te dou todos os meus lenos e tu deixa eu armar o Autorama aqui no teu quarto, com a porta fechada. Mas no. Os convidados, 
o que pensariam dele? Na certa que estaria bbado, como no ano passado.
       Ele examina o livro que ganhou do cunhado. O Mundo Restaurado, de Henry Kissinger. O cunhado, inexplicavelmente, lhe atribui um grave interesse nos problemas 
contemporneos. Vive lhe mandando recortes de jornal com trechos sublinhados e pontos de exclamao na margem. s vezes, telefona, com recados cifrados.
       ? Lembra aquela nossa conversa?
       ? Qual?
       ? Veja na terceira pgina do Correio de hoje. Um pequeno tpico no canto inferior direito.  a prova de tudo aquilo que ns discutamos no outro dia, lembra?
       ? No.
       ? A crise  irreversvel, meu filho. Um abrao.
       Ele s ganha presente de homem srio. De homem preocupado com os problemas contemporneos. Lenos brancos, camisas sbrias, meias pretas e marrons. No ano 
passado, deu para um primo taciturno uma gravata cinza-escura com manchas pretas e estrias roxas, como hematomas. Com um carto gozando a seriedade do primo. Este 
ano recebeu de volta a mesma gravata. Sem carto. As pessoas, pensa, me confundem com um adulto. V a filha mais velha que passa equilibrando vrias caixas de presentes.
       ? Te desafio para uma partida de damas.
       No  uma proposta carinhosa.  um desafio mesmo. Posso derrotar qualquer criana nesta sala! Dama, moinho, bola de gude, palavra-cruzada... A filha o ignora 
e tambm vai para o quarto.
       Decidiram, ele e a mulher, no dar nenhuma arma de brinquedo no Natal. Nem arco e flecha. Os psiclogos no aconselham. Mas ele agora tem uma lembrana que 
lhe sobe at a garganta e fica atravessada: aos doze anos ganhou uma metralhadora de lato que cuspia fogo. Tinha uma manivela do lado que a gente girava e a metralhadora 
cuspia fogo! O cunhado senta ao seu lado, com um copo de usque na mo. Aponta para o livro.
       ? Isso a explica muita coisa. Lembras daquela minha tese?...
       Mas ele no ouve mais nada. Ergue o Henry Kissinger at os olhos, como se mirasse uma metralhadora, e comea a girar uma manivela invisvel do lado do livro. 
Ao mesmo tempo, com a boca imita o rudo de tiros, e descobre entusiasmado que ainda no perdeu o jeito. O cunhado fica olhando, entre surpreso e divertido, enquanto 
ele varre a sala com rajadas imaginrias.
       
       
       
       
       
    O encontro
       
       
       Ela o encontrou pensativo em frente aos vinhos importados. Quis virar, mas era tarde, o carrinho dela parou junto ao p dele. Ele a encarou, primeiro sem 
expresso, depois com surpresa, depois com embarao, e no fim os dois sorriram. Tinham estado casados seis anos e separados, um, e aquela era a primeira vez que 
se encontravam depois da separao. Sorriram, e ele falou antes dela; quase falaram ao mesmo tempo.
       ? Voc est morando por aqui?
       ? Na casa do papai.
       Na casa do papai! Ele sacudiu a cabea, fingiu que arrumava alguma coisa dentro do seu carrinho ? enlatados, bolachas, muitas garrafas ? tudo para ela no 
ver que ele estava muito emocionado.
       Soubera da morte do ex-sogro, mas no se animara a ir ao enterro. Fora logo depois da separao, ele no tivera coragem de ir dar condolncias formais  mulher 
que, uma semana antes, ele chamara de vaca. Como era mesmo que ele tinha dito? "Tu s uma vaca sem corao!" Ela no tinha nada de vaca, era uma mulher esbelta, 
mas no lhe ocorrera outro insulto. Fora a ltima palavra que ele lhe dissera. E ela lhe chamara de farsante. Achou melhor no perguntar pela me dela.
       ? E voc? ? perguntou ela, ainda sorrindo. Continuava bonita...
       ? Tenho um apartamento aqui perto.
       Fizera bem em no ir ao enterro do velho. Melhor que o primeiro reencontro fosse assim, informal, num supermercado,  noite. O que  que ela estaria fazendo 
ali quela hora?
       ? Voc sempre faz compras de madrugada?
       Meu Deus, pensou, ser que ela vai tomar a pergunta como ironia?
       Esse tinha sido um dos problemas do casamento, ele nunca sabia como ela ia interpretar o que ele dizia. Por isso, ele a chamara de vaca, no fim. Vaca no 
deixava dvidas de que ele a desprezava.
       ? No, no.  que estou com uns amigos l em casa, resolvemos fazer alguma coisa para comer e no tinha nada em casa.
       ? Curioso, eu tambm tenho gente l em casa e vim comprar bebidas, pat, essas coisas.
       ? Gozado.
       Ela dissera uns amigos. Seria algum do seu tempo? A velha turma? Ele nunca mais vira os antigos amigos do casal. Ela sempre fora mais social do que ele. 
Quem sabe era um amigo? Ela era uma mulher bonita, esbelta, claro que podia ter namorados, a vaca.
       E ela estava pensando: ele odiava festas, odiava ter gente em casa. Programa, para ele, era ir para casa do papai jogar buraco. Agora tem amigos em casa. 
Ou ser uma amiga? Afinal, ele ainda era moo... Deixara a amiga no apartamento e viera fazer compras. E comprava vinhos importados, o farsante.
       Ele pensou: ela no sente minha falta. Tem a casa cheia de amigos. E na certa viu que eu fiquei engasgado ao v-la, pensa que eu sinto falta dela. Mas no 
vai ter essa satisfao, no senhora.
       ? Meu estoque de bebidas no dura muito. Tem sempre gente l em casa ? disse ele.
       ? L em casa tambm  uma festa atrs da outra.
       ? Voc sempre gostou de festas.
       ? E voc, no.
       ? A gente muda, n? Muda de hbitos...
       ? Tou vendo.
       ? Voc no me reconheceria se viesse viver comigo outra vez.
       Ela, ainda sorrindo:
       ? Que Deus me livre.
       Os dois riram. Era um encontro informal.
       Durante seis anos, tinham se amado muito. No podiam viver um sem o outro. Os amigos diziam: Esses dois, se um morrer o outro se suicida. Os amigos no sabiam 
que havia sempre uma ameaa de mal-entendido entre eles. Eles se amavam mas no se entendiam. Era como se o amor fosse mais forte, porque substitua o entendimento, 
tinha funo acumulada. Ela interpretava o que ele dizia, ele no queria dizer nada.
       Passaram juntos pela caixa, ele no ofereceu para pagar, afinal era com a penso que ele lhe pagava que ela dava festas para uns amigos. Ele pensou em perguntar 
pela me dela, ela pensou em perguntar se ele estava bem, se aquele problema do cido rico no voltara, comearam os dois a falar ao mesmo tempo, riram, depois 
se despediram sem dizer mais nada.
       Quando ela chegou em casa ainda ouviu a me resmungar, da cama, que ela precisava acabar com aquela histria de fazer as compras de madrugada, que ela precisava 
ter amigos, fazer alguma coisa, em vez de ficar lamentando o marido perdido. Ela no disse nada. Guardou as compras antes de ir dormir.
       Quando ele chegou no apartamento, abriu uma lata de pat, o pacote de bolachas, abriu o vinho portugus, ficou bebendo e comendo sozinho, at ter sono e a 
foi dormir.
       Aquele farsante, pensou ela, antes de dormir.
       Aquela vaca, pensou ele, antes de dormir.
       
       
       
       
       
    Os diamantes chegaram
       
       
       Ubiratan S., funcionrio pblico, 47 anos, casado com Hilda S., prendas domsticas, sem filhos, acordou no meio da noite de um sonho burocrtico. O telefone 
estava tocando. Ubiratan S. olhou seu relgio de pulso, que nunca atrasava ou adiantava. Duas e 22. quela hora, s podia ser morte na famlia ou engano. O tio Potiguar, 
pensou Ubiratan S., levantando-se, tonto. Morreu. Quando ergueu o fone do gancho, Ubiratan S. j reorganizava, mentalmente, a sua rotina do dia seguinte, quinta-feira, 
para acomodar o velrio e o enterro do tio Potiguar.
       ? Al?
       ? Os diamantes chegarram ? disse uma voz feminina. Assim mesmo, chegarram, o erre carregado. E no disse mais nada.
       De volta  cama, Ubiratan acalmou Hilda S., prendas domsticas, olhos arregalados.
       ? Era trote. Dorme
       No dia seguinte, quinta-feira, Ubiratan S. maldisse vrias vezes o telefonema da noite. Tinha lhe roubado cinco minutos de descanso reparador e ele, sem suas 
oito horas completas de sono, ficava imprestvel. Na repartio, carimbou uma via errada pela primeira vez na sua vida funcional. Mas o mundo era assim, cheio de 
gente sem ter o que fazer.
       Quase no fim do expediente, chegou o envelope.
       Era um envelope branco, comum. Dentro, um guardanapo de papel com o nome de um bar impresso. E, escrito  mo: "Hoje. Dez horas. Se eu estiver bebendo um 
Martini  sinal de que tudo est bem. Um drinque longo  sinal de perigo. Helga".
       Ubiratan S. amassou o envelope e o guardanapo e jogou na cesta, indignado. Aquilo era coisa do pessoal do Arquivo. Uns desocupados. Ainda iam ouvir poucas 
e boas. Mais trs ou quatro anos e Ubiratan chegaria a um cargo de chefia e a aquela folga ia acabar. Poucas e boas.
        meia-noite, o telefone do seu apartamento tocou. Hilda S., prendas domsticas, acordou assustada. Ubiratan S. jogou longe o seu Vida Crist e pulou da cama. 
O tio Potiguar!
       ?  a Helga ? disse a mesma voz. ? Esperei voc no bar at agora. O que houve?
       Ela pronunciava esperrei. Ouviu poucas e boas. Estava pensando o qu? Ele era um homem de respeito, responsvel, trabalhador... A mulher disse "compreendi" 
e desligou.
       Ubiratan S. recuperou o controle antes de voltar para a cama. No gostava de perder o controle. Era um homem metdico. Desde os dois ou trs anos, quando 
aprendera a se limpar sozinho, era um homem metdico. Disse para Hilda S., prendas domsticas, que tinha sido um trote outra vez.
       ? Dorme, dorme.
       No dia seguinte, outro envelope branco. Um bilhete: "Desculpe. Eu devia saber que seu telefone est controlado e voc no pode falar livremente. Mas precisamos 
nos encontrar logo. Tenho os diamantes e o ano est no meu encalo. Sei que Dombrovski tambm chegou de Buenos Aires. O que vamos fazer? Helga".
       Sbado, Ubiratan S. e Hilda S., prendas domsticas, foram visitar o tio Potiguar, que estava timo. Aquele no morria to cedo. Na volta, entraram numa sorveteria. 
Hilda S., prendas domsticas, adorava creme russo. Ubiratan notou o ano que entrou atrs deles e pediu ameixa e coco.
       s quatro horas da madrugada, o telefone tocou. Hilda S., prendas domsticas, acordou em pnico. Era Helga.
       ? Voc est sendo vigiado.
       ? Eu sei ? disse Ubiratan.
       Ubiratan S. no dormiu mais naquela noite. Passou o domingo espiando pela janela. No poderia descrever o que sentia. No era mais indignao. Nem medo. Era 
assim como um frio de antecipao na barriga. Tambm no dormiu na noite de domingo para segunda. Na repartio, carimbou a prpria mo vrias vezes, distraidamente. 
E ento, na noite de segunda, o telefone tocou outra vez. Hilda S., prendas domsticas, deu um grito. Ubiratan correu para atender.
       ? Rpido! ? disse Helga. ? Eles esto rondando o meu quarto. No sei o que fazer. Venha depressa!
       Ela deu o nome de um hotel. E de repente, Ubiratan S. estava correndo dentro do seu apartamento. Vestiu-se como um raio. Eufrico. Hilda S., prendas domsticas, 
no entendia nada. O que era? Mas Ubiratan no respondeu. No saberia o que dizer. Se abrisse a boca era para dar uma gargalhada descontrolada. Quando saiu pela 
porta pela ltima vez, ouviu Hilda S., prendas domsticas, gritando da cama:
       ?  o tio Potiguar? Ubiratan, me responde!  o tio Potiguar?
       Hilda S., prendas domsticas, nunca mais viu Ubiratan S. Ningum na cidade e na repartio viu Ubiratan S. Sua mulher recebe remessas de dinheiro irregularmente 
de lugares misteriosos. Adis-Abeba. Anturpia. Macau. Uma vez julgou identificar o marido junto com uma loira numa foto de revista sobre a temporada de inverno em 
Saint-Moritz, mas o cabelo, oxigenado e penteado para a frente, era diferente. Outra vez, um telefonema que parecia vir de muito longe,
       ? Hilda?
       ? Ubiratan, onde  que...
       ? No se preocupe. Est tudo bem.
       ? Mas Ubiratan...
       ? No posso falar agora. Um beijo.
       No fundo, o som de uma orquestra de marimbas. E um dia bateu um negro com sotaque francs na porta do apartamento e entregou um pacote.
       ?  de Ubiratan? ? perguntou Hilda S., prendas domsticas.
       ? Pode ser ? respondeu o negro ? Ns s conhecemos ele pelo codinome. L Faucon
       
       
       
       
       
    Fantstico, os olhos de boxer
       
       
       Discordavam sobre coisas pequenas. Ela, por exemplo, adorava o Nelson Ned; ele no gostava. Mas nunca tinham brigado de verdade. At que um dia...
       Um dia (era domingo) ele ligou a televiso para ver um programa de debate esportivo e ela disse que queria ver o Fantstico. Ele olhou para ela, meio confuso.
       ? Como, Fantstico?
       ? Fantstico, o show da vida.
       ? Sim, minha filha, mas...
       ? E outra coisa, no me chame de sua filha.
       Ele tinha 34 anos, ela tinha 29. Estavam casados h oito anos. Tinham dois filhos, Denise, de seis, e Jnior, de quatro. Uma irm dela, asmtica, morava junto. 
Havia um acordo ttico: domingo, ele escolhia os programas na televiso. E sempre via o debate esportivo.
       ? Que  que h? ? perguntou desconfiado.
       ? No h nada, eu quero ver Fantstico, o show da vida, s isso.
       ? Eu tambm ? disse, timidamente, a cunhada asmtica, que sempre sentava numa das cadeiras da mesa de jantar para ver televiso. Ficava apoiada com um brao 
fino sobre a mesa. No centro da mesa havia um prato de loua com frutas artificiais.
       Ele olhou para a cunhada, de boca aberta, depois para a mulher. Era preciso pensar antes de reagir. Era um homem razovel, nunca tinham brigado antes. S 
por coisas pequenas.
       ? Mas domingo eu sempre vejo o meu programa.
       ? Hoje eu quero ver o Fantstico.
       ? Eu tambm ? repetiu a cunhada, com mais fora.
       Ele ficou de p num salto. Como se tivesse tomado a deciso de acabar de uma vez por todas com aquela bobagem. Com aquele motim. Afinal, o que  que estavam 
pensando. Mas no tinha nada para dizer e sentou-se em seguida, com cara de assunto encerrado. Como se s o seu gesto de ficar de p j tivesse restabelecido a hierarquia 
do domingo, e estava acabado. Mas a mulher caminhou ameaadoramente para o aparelho de televiso. Era preciso pensar depressa.
       ? Minha filha...
       ? No me chame de sua filha.
       Ela nem virara a cabea para dizer isto. Abaixava-se para girar o seletor de canal. Ele sentiu que aquele era o momento definitivo do seu casamento.
       ? No toque nesse boto.
       A mulher hesitou, depois tocou no boto. Mas no o girou. A mulher ficou imvel. Ele reforou a sua ordem com uma ameaa vaga mas firme.
       ? Se voc virar esse boto, no sei no.
       ? Vira! ? disse a cunhada, com surpreendente autoridade.
       Ele ergueu-se outra vez, desta vez devagar como se temendo que qualquer movimento mais brusco pudesse precipitar os acontecimentos. Ele podia at levar uma 
ma artificial pelas costas, tudo era possvel. Recuou at ficar de frente para as duas irms. Apontou para a mulher.
       ? Afaste-se dessa televiso.
       "Afaste-se". Nunca falara assim antes. A gravidade da situao impunha uma certa solenidade  linguagem. Falava como filme dublado na televiso.
       A mulher endireitou-se. Olhou para a irm. Sem se falarem, sem qualquer sinal, mas como se tudo estivesse previamente combinado "se ele resistir a gente pega 
e...", as duas caminharam na direo da cozinha. Ele sentiu que sua vitria precisava ser consolidada. Era frgil ainda, o inimigo mantinha a iniciativa. E a vantagem 
do fator surpresa. Elas j tinham desaparecido pela porta da cozinha quando ele gritou:
       ? E quero meu jantar em seguida!
       Durante dois, trs minutos, ele ficou imvel, encostado no guarda-loua, tentando decifrar os sons que vinham da cozinha. O seu corao batia. Era um homem 
razovel, no gostava de briga. Casara com ela por causa de seu gnio dcil, submisso. Aqueles olhos de cachorro boxer... A Denise estava no seu quarto. O Jnior 
dormia. Ele no fazia um movimento, encostado no guarda-loua, esperando a reao das duas irms.
       E de repente, ele se lembrou. Meu Deus!  o aniversrio dela! Eu me esqueci por completo! Precipitou-se na direo da cozinha, ensaiando o seu pedido de desculpas. 
"Minha filha..."
       O almoo fora galinha. O que sobrara da galinha seria servido  noite, frio, com salada. Ele ainda no tinha chegado na porta quando viu passarem por ele, 
em formao como uma esquadrilha, vrios pedaos de galinha, arremessados da cozinha. Parou onde estava, de olhos arregalados. Segundos depois uma poro de salada 
tambm atravessava a sala e ia espalhar-se no cho, em frente  televiso.
       Quando, meia hora depois, as mulheres voltaram para a sala para investigar o silncio, o encontraram ainda de p, os olhos arregalados, olhando fixo para 
uma Santa-Ceia na parede. Chamaram um primo que era mdico. Ela pediu desculpas ao marido, a cunhada chorava de remorso, mas quando ele voltou a si e viu as duas 
ao lado da cama, encolheu-se para junto da parede como quem acaba de ver um monstro no quarto.
       Ele tirou licena da repartio, passou 40 dias em casa de pijama vendo televiso. Quem escolhia os programas era a mulher. At aos domingos. Ela escolhia 
o Fantstico e ele ficava olhando para as duas irms durante todo o programa com cara de quem quer compreender.
       
       
       
       
       
    Ed Mort e os nobres selvagens
       
       
       Mort. Ed Mort. Detetive Particular.  o que est escrito na plaqueta nova que mandei botar na minha porta. Roubaram a outra. Ocupo uma espcie de armrio 
numa galeria de Copacabana, junto com um telefone mudo, 17 baratas e um rato albino. Entre uma escola de cabeleireiros e uma loja de carimbos. A loja de carimbos, 
antes, era uma pastelaria. A pastelaria fechou depois de um desentendimento com a Prefeitura sobre a natureza de alguns ingredientes no recheio. Azeitonas pretas 
ou coc de rato? Sei no. Foi depois que a pastelaria fechou que o rato albino apareceu no meu escritrio, e tinha um ar culpado. Eu o chamo de Voltaire, porque 
ele s vezes desaparece, mas sempre volta. Tenho leitura. Mort. Ed Mort. Est na plaqueta.
       Eu estava construindo uma armadilha para baratas, com clips de papel e o catlogo telefnico de 1962, quando ela entrou. Era francesa. Vi pelo seu p dentro 
da sandlia. Conheo mulher pelo p. Nacionalidade, estado civil, vida pregressa. Um truque que aprendi com um velho duque italiano que um dia apareceu morto na 
banheira do seu quarto do Copacabana Palace. Comido por piranhas. Um caso estranho. Vou contar tudo num livro, algum dia. J comecei minha autobiografia vrias vezes. 
Sem sucesso. Sempre conto tudo ? do incio humilde na Penha ao atual esplendor entre baratas ? em menos de quatro pginas. Estas malditas frases curtas. Sucinto 
muito. Ela era francesa.
       ? Quesquec? ? perguntei. Tenho leitura. Sem querer me jeangabin.
       Ela se surpreendeu. Era linda quando se surpreendia. Tinha um acento bonito, e isso que eu a estava vendo de frente. Chamava-se madame Rousseau e procurava 
seu marido.
       ? Jean-Jacques, eu presumo ? disse eu.
       Olhei em volta para ver se as baratas e o rato estavam acompanhando o dilogo. J que no me abandonavam, que pelo menos me respeitassem. Ela respondeu: 
No. Jean-Paul.
       ? Hmmm disse eu, em francs.
       Jean-Paul e madame Rosseau tinham vindo passar o carnaval no Rio. Ele era socilogo. Ela era antroploga. Desenvolviam uma tese sobre as civilizaes tropicais.
       ? Vous savez. A inocncia do Novo Mundo. O ltimo povo feliz. Etcetera.
       Acho que foi o etcetera. Me apaixonei. Pensei em convid-la para ir at o meu apartamento. Medir o meu crnio, sei l. Mas me contive. Ela era uma cliente 
e eu precisava de dinheiro. Estava h meses numa dieta de pedao de pizza e Fanta uva. E meu apartamento era to pequeno que para espirrar tinha que abrir a janela. 
Mort. Ed Mort. Est na plaqueta.
       Onde ela vira o marido pela ltima vez? Fora na frente do Mredien, na tera-feira de carnaval. Passara um bloco, ao meio-dia, e Rosseau no se contivera. 
Sara atrs do bloco, gritando para a mulher que o esperasse. Ela no procurara a polcia ou o consulado. Jean-Paul podia estar fazendo pesquisa. Uma vez desaparecera 
no Congo durante quatro anos e na volta ainda reclamara do atraso do jantar. Madame Rousseau estava acostumada. Mas...
       Completei a frase por ela:
       ? Pour voi de les doutes...
       Ela pareceu no entender. Estava nervosa. Perguntei como era o bloco. Tinha um negro na frente e quatro mulatas? Tinha. O negro era barrigudo? Era. Camiseta 
do Vasco? Ela ficou confusa. Vasco? U, u. Lista assim. La croix de Malte.
       Conferia. Eu sabia. Disse para ela esperar no hotel. O caso estaria resolvido antes que ela pudesse dizer zut, alors. Tomei nota do nmero do seu quarto. 
Mentalmente, porque roubaram o meu bloco de notas e a minha Bic.
       O golpe era antigo. Todos os carnavais o negro Antecedentes que ganhara o nome porque ao nascer j tinha ficha na polcia formava o seu bloco. Passava pela 
frente dos hotis em pleno abandono orgistico (tenho leitura. Mort. Ed Mort. Est na plaqueta). Quando o bloco voltava para a Prado Jnior, vinha cheio de turista 
atrs. Em confraternizao com os nativos. A, os nativos faziam a limpa nos turistas. O negro Antecedentes alegava inocncia. S estava brincando no carnaval, 
o que que h? Tinha culpa que os turistas se empolgavam?
       Encontrei Antecedentes no lugar de sempre. Um bar da Prado, O Condicional, porque l s d meliante solto. Ele estava destruindo uma coxa de galinha. Me encarou. 
Compreendi como a coxa de galinha se sentia. Perguntei pelo francs.
       ? Que francs?
       ? Um que saiu no bloco de vocs e at hoje no voltou. Ele gosta de carnaval mas no tanto. A mulher quer ele de volta, e com todas as peas.
       Antecedentes pensou um pouco. Engoliu a coxa de galinha e me considerou como sobremesa. Depois perguntou:
       ? O que  que eu levo?
       ? A metade que a dona me pagar.
       O francs estava num apartamento com as quatro mulatas. Pesquisa. Queria saber tudo sobre a inocncia do Novo Mundo e pagava com travellers. Uma das mulatas 
estava contando que era filha de uma princesa ndia com um jacar, de olho na Lacoste do francs, quando eu entrei. Ele no gostou da interrupo. A muito custo 
consegui convenc-lo a pelo menos telefonar para a mulher.
       Meu trabalho estava feito. Como o francs emprega tudo na pesquisa, madame Rousseau no tem com o que me pagar. O francs foi levado numa expedio ao Vidigal 
para investigar os hbitos da tribo de uma das mulatas, que pelo p  gacha de Carazinho.
       Antecedentes j veio me ver. Quer a sua parte e no aceita desculpas. As baratas vibram. Voltaire me ignora. Mort. Ed Mort. Etcetera.
       
       
       
       
       
    O clube
       
       
       ? Aqui estamos ns. Cada vez mais velhos...
       ? E gordos...
       ? Voc est enorme.
       ? Voc tambm.
       ? Graas a Deus. J perdi todos os meus apetites, menos o de comida.
       ?  o que eu sempre digo: comida  bom e alimenta.
       ? O clube est deserto. Os criados foram todos embora?
       ? Voc no se lembra? No h mais criados.
       ?  mesmo. No havia mais razo para mant-los aqui. Afinal, nos reunimos s uma vez por ms.
       ? Mas eu vivo s para estas reunies.
       ? Eu tambm. No h mais nada.
       ? Hrmf.
       ? Hein?
       ? Eu disse, "hrmf'. Um barulho de velho. No significa nada.
       ? No compreendo por que esta mesa posta para doze. Do grupo original, s sobramos ns dois.
       ?  a tradio. Temos que manter a tradio. Cada lugar vazio corresponde a um membro do clube que se foi.
       ? Ali se sentava o... Como era mesmo?
       ? O Gasto.
       ? Gasto, Gasto... No sei se me lembro...
       ? Advogado. Morreu aqui na mesa mesmo, com uma espinha de peixe atravessada na garganta. Foi um escndalo. Ele rolou por cima da mesa. Destruiu um pudim de 
claras que parecia estar timo. Nunca o perdoei.
       ?  engraado. No consigo me lembrar...
       ? Fazia um assado de perna de vitela com molho de hortel.
       ? Claro! Agora me lembro. E batatas noisette. Sim, sim.
       ? Ali, sentava o doutor Malvino.
       ? Camares com molho de nata.
       ? No. Musse de salmo.
       ? Exato. Divina. E do lado dele...
       ? O Cerdeira. O primeiro dos nossos a morrer. Corao.
       ? Me lembro. Lamentvel. Todos sentimos muito a sua morte. Ningum fazia uma salada de anchovas como ele.
       ? Se ao menos tivesse deixado a receita do molho...
       ? Lamentvel, lamentvel.
       ? E quando morreu o Parreirinha?
       ? Nem me fale. Foi um golpe duro. Pensar que nunca mais provaramos o seu creme de avels.
       ? Todos os membros do clube foram ao seu enterro. Houve cenas de desespero. Muitos salivavam descontroladamente junto ao caixo.
       ? A viva alegou que ele no deixara a receita. Pensamos em recorrer  Justia, lembra? Era birra dela. Dizia que o clube tinha matado o Parreirinha, de congesto.
       ? Balela. Sempre fomos incompreendidos. Nos acusavam de sermos smbolos de uma classe empanturrada pela prpria inconscincia, qualquer coisa assim. Diziam 
que para ns a comida era tudo. Injustia.
       ? Claro. Tambm havia a bebida.
       ? Ali sentava o Rego.
       ? Outra perda lamentvel.
       ? Esta eu no senti muito. Para ser franco, nunca gostei muito da sua massa-podre.
       ? E o Maurino...
       ? Maurino. No estou situando bem a pessoa...
       ? Por amor de Deus. Maurino. Um dos homens mais importantes desta repblica. Nosso membro mais ilustre. Cirrose heptica.
       ? O que  que ele fazia?
       ? Ovos recheados com trufas. 
       ? Ah, aquele Maurino! Inesquecvel.
       ? Mas chega de recordaes. Vamos ao prato de hoje.
       ? Preparei a minha especialidade. Panquecas de hadock flambadas ao conhaque.
       ? Ahn...
       ? Hein?
       ? "Ahn..." Um gemido de prazer.
       ? Me ajude com o conhaque. J no consigo segurar...
       ? Cuidado. Assim. Epa.
       ? Derramou um pouco na toalha. No faz mal.
       ? Cuidado com esse fsforo. No aproxime muito da... Olha a, prendeu fogo na toalha.
       ? Olha a garrafa!
       ? Caiu embaixo da mesa.
       ? O fogo j chegou no cho.
       ? Voc, quando fala em "flamb",  "flamb" mesmo... Toda a mesa est em chamas.
       ? Salva as panquecas! Salva as panquecas!
       ? Tarde demais.
       ? Acho que devamos chamar algum para...
       ? J estamos cercados pelo fogo. No h ningum aqui. E eu, francamente, no tenho nimo para sair desta cadeira.
       ? Eu sei que a pergunta, a esta altura,  acadmica, mas que conhaque era?
       ? Hennesy quatro estrelas, naturalmente. Eu no uso outra coisa.
       ? Pelas chamas, eu juraria que era um Martel.
       ? Ai.
       ? Hein?
       ? "Ai". Denotando dor. Acho que est pegando fogo na minha cala. Qual seria o seu prato para a nossa prxima reunio?
       ? Bisque de lagosta.
       ? Pena, pena. Enfim...
       ? O pior  morrer assim, queimado.
       ? Voc preferia como?
       ? Pelo menos mal-passado.
       
       
       
       
       
    O jogo
       
       
       ? Nicou.
       ? No nicou.
       ? Nicou!
       ? No nicou!
       Atracaram-se. Rolaram pelo cho. Eram vizinhos. Os dois com oito anos. Xingavam-se aos gritos.
       ? Filho disto!
       ? Filho daquilo!
       As duas mes citadas correram para ver o que estava acontecendo. Separaram os dois, que choravam de dor e de raiva. As mes tiveram que segurar os dois com 
fora e lev-los, cada um para a sua casa. Seno a briga recomeava.
       ? Nicou!
       ? No nicou!
       Nunca mais jogaram bola de gude. Nunca mais brincaram juntos. Quando um deles mudou de casa, botou a cabea para fora do carro e gritou para o que ficava.
       ? Nicou!
       O outro no teve tempo de responder. Mas fez um gesto expressivo. Nicou aqui, !
       Reencontraram-se anos depois, por coincidncia, no ginsio. Encararam-se, meio sem jeito. Mas no se falaram. No fim do ano, um tinha tirado o primeiro lugar 
da turma e o outro, o segundo. No ano seguinte, foi o contrrio. Disputaram a presidncia do grmio estudantil. Foi uma campanha violenta, com ataques pessoais. 
Entrou me no meio. Houve acusaes mtuas de desonestidade no jogo, o que ningum entendeu. O derrotado fundou um grmio dissidente. Cada um entrou para um cursinho 
pr-vestibular. Os cursinhos brigaram, pela imprensa, sobre qual dos dois fizera o melhor vestibular na cidade. Entraram os dois para a Engenharia.
       Um casou com a segunda fortuna do pas. A notcia saiu em todas as colunas sociais. O outro casou com a terceira fortuna do pas. Saiu matria paga em todas 
as revistas nacionais. O primeiro edifcio construdo pelo primeiro se chamava Nico. O segundo construiu um edifcio de cinco andares chamado Nonico. Um teve um 
filho. O outro teve gmeos. Um foi morar num apartamento de cobertura. O outro comprou a cobertura do lado, um andar mais alto, e mandou colocar uma faixa no lado 
do prdio, virada para a cobertura do outro. Na faixa havia s uma palavra. Nicou. O outro comprou o edifcio ao lado, despejou o vizinho da sua cobertura, destruiu 
o edifcio, ergueu outro em seu lugar, com o gabarito mximo, e foi morar na cobertura. Nos mesmos jornais que anunciavam a inaugurao do novo prdio apareceu um 
misterioso anncio de pgina inteira que dizia o seguinte: "Est certo. Mas nicou".
       Quando um construiu um edifcio de 36 andares, o outro construiu um de 40. Um anunciou o lanamento do maior empreendimento imobilirio do continente, o Brazilian 
Golden Palace Tower Suites, edifcios de 80 andares na Rio-Santos com vista para o mar. O outro criticou publicamente a construo de espiges na rea e o uso absurdo 
de nomes em ingls e anunciou a construo, ao lado, de edifcios de 82 andares, Ls Jardins Plein Soleil sur la Mer.
       Um construa um edifcio, o outro construa dois. Um destrua um marco histrico ou uma casa antiga, o outro destrua um quarteiro. Lideravam grupos sociais 
rivais. Um organizou a Festa do Pavo Deslumbrado, no Iate. O outro organizou a Noite das Lnguas Afiadas para comentar o fracasso da festa do primeiro, no Country. 
Um fechou o Regine's com o seu grupo e foi notcia nacional. O outro fechou a Regine na Avenida Atlntica com o seu carro e foi notcia internacional. Um viu-se 
envolvido na falncia fraudulenta do seu grupo imobilirio. Dias depois, o outro tambm era citado na concordata do seu grupo e fazia questo de dizer que a sua 
dvida era maior. Ambos foram socorridos pelo Governo. Um comprou um barco com piscina, cinema, sauna e adega climatizada. O outro comprou um avio a jato com cama 
redonda.
       Um decidiu retirar-se da vida empresarial e dedicar-se  arte. O outro tambm anunciou que renunciava aos grandes negcios e se tornava um patrono da cultura. 
Para comear, fundou uma revista de crtica de arte.
       Um inventou a arte monumental. Seu primeiro trabalho foi um gigantesco obelisco de isopor. ("Simbolizando", disse a revista do outro, "o que o artista tem 
na cabea: absolutamente nada"). A seguir, desapropriou e arrasou uma grande rea urbana para erguer uma estranha escultura, grandes bolas pintadas como bolas de 
gude, sendo que duas das bolas se tocavam. Chamou a escultura de A Grande Nicada. Todo o nmero seguinte da revista do outro foi dedicado a essa obra insana de uma 
mente doentia que envergonha a inteligncia nacional, alm de ser mentirosa. "A Grande Nicada  um embuste!" Houve um grande debate em todo o pas sobre a validade 
ou no e as implicaes sociopolticas da arte monumental a partir de A Grande Nicada, mas o artista recusou-se entrar no debate.
       No responderia aos seus crticos. Convidou autoridades e personalidades para um cruzeiro no seu iate, durante o qual seria inaugurada a sua obra mais recente. 
Tinha comprado uma ilha no Oceano Atlntico. Na praia colocara uma tabuleta, A Ilha. Com a sua assinatura embaixo.
       Todos a bordo do iate comentavam a engenhosidade do artista quando tiveram sua ateno atrada para um avio que sobrevoava a ilha, soltando fumaa branca. 
Era o avio do outro, que escrevia no cu, de horizonte a horizonte: "Que bobagem!" Mas o outro estava preparado. A uma ordem sua, a cpula do jardim de inverno 
do iate abriu-se, revelando a existncia de um canho antiareo. O avio do outro foi derrubado. Mas antes de mergulhar no mar, escreveu com fumaa no cu: "No 
nicou."
       O outro, desesperado, afundou o prprio iate. E naufragou junto com os convidados, que no entendiam mais nada, gritando: "Nicou! Nicou!"
       
       
       
       
       
    O conhecedor
       
       
       A primeira condio para se escrever um bom policial ingls, eu sei,  ser ingls, mas isso no me detm. Afinal, a primeira condio para ser cronista do 
JB  dominar o portugus e isso tambm no me detm. Aqui vai mais uma cena do livro que estou escrevendo e que s ser publicado quando eu me mudar para Londres, 
trocar meu nome para Nigel ou Trevor e me dedicar  coleo de gravuras erticas da era vitoriana e  autoflagelao em algum mido poro de Mayfair, entre goles 
de brandy com soda. Leia-se com a apropriada entonao de Eton.
       Lord Graverly passou a caixa de charutos entre os convidados. Do esplndido jantar que tinha servido sobraram apenas algumas manchas na toalha de linho branco, 
os copos vazios das trs variedades de vinho e um ar de profunda satisfao no rosto de cada um. Era aquele mgico instante que vem depois da retirada das mulheres 
para a sala e antes de servirem o Porto, em que o imprio floresce de novo sobre a mesa e os homens agradecem a Deus por serem ingleses. Lord Graverly esperou que 
todos provassem o Porto antes de falar.
       "Ento", disse o corpulento Lord, apontando para Peter com seu charuto aceso, que ele segurava como um dardo, "voc  o famoso cientista, expert em manuscritos 
iluminados da era bizantina e na vida de Mae West, criptgrafo, agente nem to secreto do Governo de Sua Majestade, famoso pelas suas aventuras, inclusive amorosas, 
maior especialista vivo em peixes tropicais, fluente em 17 lnguas vivas, quatro mortas e duas semiconscientes, detetive amador com a reputao de jamais ter deixado 
de desvendar um caso. Peter Vest-Pocket?"
       "No", respondeu Peter, sorrindo.
       "Como, no? Me disseram que..."
       "Sou expert em manuscritos iluminados da era pr-bizantina. O resto est certo."
       Todos riram mas o riso acabou em tosses embaraadas e goles extemporneos de Porto, pois o anfitrio mantivera-se srio. Seus olhos fixos no rosto de Peter 
eram como duas pistolas prestes a disparar. Lord Graverly no achara graa.
       Era um homem conhecido por duas coisas: sua fortuna e sua crueldade. A fortuna tornara-se menor e menos ameaadora com o passar dos anos e os impostos progressivos, 
o que s aumentara sua crueldade. Lord Graverly possua minas na frica, plantaes na Amrica do Sul, a maior adega particular da Inglaterra e vinhedos na Frana, 
mas sua mulher o abandonara e desaparecera para sempre, na certa incapaz de agentar seus caprichos. Um dia Lord Graverly desembarcara em Londres, vindo da Frana, 
sem a mulher, e ningum tivera coragem de perguntar por ela.
       Homem de muitos comensais mas pouqussimos amigos, Lord Graverly debruou-se sobre a mesa para dirigir-se ao seu mais recente inimigo. Se sua voz pudesse 
ser engarrafada teria de ser mantida longe de crianas. Estava carregada de veneno.
       "Me disseram tambm que voc  um grande conhecedor de vinhos. O melhor que h."
       "O senhor  um homem bem informado, Lord Graverly".
       "E voc, meu amigo,  um farsante".
       Os outros, que freqentavam a Manso Graverly pela comida e pelas pequenas generosidades que o anfitrio lhes atirava, de vez em vez, como migalhas, prenderam 
a respirao. Que homem intragvel! Mas Peter manteve-se calmo. Ainda sorria.
       "Vou provar que voc  um farsante", continuou Graverly. "O vinho que tomamos hoje com o carneiro, e que apresentei como sendo um Saint-Emilion 47, e que 
voc elogiou to efusivamente, no era nada disso".
       Todos os olhos se voltaram para Peter.
       "Meu caro Graverly", disse Peter, "eu notei antes mesmo de levar o vinho  boca, pela cor, que no era um Saint-Emilion. Pelo bouquet notei que no era nem 
um Bordeaux. Tive, no entanto, a decncia de no desmascar-lo. Se o senhor quer servir vinho inferior a seus convidados e mentir quanto  sua origem, o problema 
 seu".
       "Isso voc est dizendo agora para salvar a cara!"
       "De maneira nenhuma. Posso identificar o vinho que tomamos.  um produto do seu prprio vinhedo na regio de Leporace, uma pssima regio para tintos, por 
sinal. Feito com uvas da encosta Leste da colina de Givenchy-sur-Lac, da colheita de 1963, um bom ano para a regio em geral mas muito ruim para os seus vinhedos, 
devido ao solo muito maltratado. Notei, pelo sabor, o excesso de material alcalino no solo. E notei outra coisa".
       Lord Graverly parecia que inchava  medida que Peter falava. Mas Peter no parou.
       "Demorei a identificar o que seria esse outro componente do sabor. Foi por isso que me forcei a aceitar outro copo do seu lamentvel vinho. Finalmente, identifiquei 
o estranho sabor.  de osso, meu Lord. Osso humano. De uma pessoa do sexo feminino, provavelmente inglesa e eu diria ? mas claro que posso estar errado ? da regio 
de Sussex, enterrada ali por volta de 1961".
       E todos lembraram que a mulher de Graverly era de Sussex, quase certamente do sexo feminino, que desaparecera em 1961, que o prprio Lord fora o ltimo a 
v-la com vida e que, pensando bem, o assassinato no estava fora de questo.
       Mas Lord Graverly mudou de assunto.
       
       
       
       
       
    Os homenzinhos de Grork
       
       
       A fico cientfica parte de alguns pressupostos, ou preconceitos, que nunca foram devidamente discutidos. Por exemplo: sempre que uma nave espacial chega 
 Terra vinda de outro planeta,  um planeta mais adiantado do que o nosso. Os extraterrenos nos intimidam com suas armas fantsticas ou com sua sabedoria exemplar. 
Pior do que o raio da morte  o seu ar de superioridade moral. A civilizao deles  invariavelmente mais organizada e virtuosa do que a da Terra e eles no perdem 
a oportunidade de nos lembrar disto. Cansado de tanta humilhao, imaginei uma histria de fico diferente. Para comear, o Objeto Voador No Identificado que chega 
 Terra, descendo numa plancie do Meio-Oeste dos Estados Unidos, chama a ateno por um estranho detalhe: a chamin.
       ? Vi com estes olhos, xerife. Ele veio numa trajetria irregular, deu alguns pinotes, tentou subir e depois caiu como uma pedra.
       ? Deixando um facho de luz atrs?
       ? No, um facho de fumaa. Da chamin.
       ? Chamin? Impossvel. Vai ver o alambique do velho Sam explodiu outra vez e sua cabana voou.
       ? No. Tinha o formato de um disco voador. Mas com uma chamin em cima.
       O xerife chama as autoridades estaduais, que cercam o aparelho. Ningum ousa se aproximar at que cheguem as tropas federais. Um dos policiais comenta para 
outro:
       ? Voc notou? A vegetao em volta...
       ? Dizimada. Provavelmente um campo magntico destrutivo que cerca o disco e...
       ? No. Parece cortada a machadinha. Se no fosse um absurdo eu at diria que eles esto colhendo lenha.
       Nesse instante, um segmento de um dos painis do disco, que  todo feito de madeira compensada,  chutado para fora e aparecem trs homenzinhos com machadinhas 
sobre os ombros. Os trs saem  procura de mais rvores para cortar. Esto examinando as pernas de um dos policiais, quando este resolve se identificar e aponta 
um revlver para os homenzinhos.
       ? No se mexam ou eu atiro.
       Os homenzinhos recuam, apavorados, e perguntam:
       ? Atira o qu?
       ? Atiro com este revlver.
       O policial d um tiro para o cho como demonstrao. Os homenzinhos, depois de refeitos do susto, aproximam-se e passam a examinar a arma do policial, maravilhados. 
Os outros policiais saem de seus esconderijos e cercam os homenzinhos rapidamente. Mas no h perigo. Eles querem conversa. Para facilitar o desenvolvimento da histria, 
todos falam ingls.
       ? Vocs no conhecem armas, certo? ? quer saber um Policial. ? Esto num estgio avanado de civilizao em que as armas so desnecessrias. Ningum mais 
mata ningum.
       ? Voc est brincando? ? responde um dos homenzinhos. ? Usamos machadinhas, tacapes, estilingue, catapulta, flecha, qualquer coisa para matar. Uma arma como 
essa seria um progresso incrvel no nosso planeta. Precisamos copi-la!
       Chegam as tropas federais e diversos cientistas para examinarem os extraterrenos e seu artefato voador. Comeam as perguntas. De que planeta eles so? De 
Grork. Como  que se escreve? Um dos homenzinhos risca no cho: GRRK.
       ? Deve faltar uma letra ? observa um dos cientistas.
       ? O "O".
       ? O "O"?
       ? Assim ? diz o cientista da Terra, fazendo uma roda no cho.
       O homenzinho examina o "O". As possibilidades da forma so evidentes. A roda! Por que no tinham pensado nisso antes? Voltaro para o Grork com trs idias 
revolucionrias: o revlver, a roda e a vogal. Querem saber onde esto, exatamente. Nunca ouviram falar na Terra. Sempre pensaram que seu planeta fosse o centro 
do universo e aqueles pontinhos no cu, furos no manto celeste. Sua viagem era uma expedio cientfica para provar que o planeta Grork no era chato como muitos 
pensavam e que ningum cairia no abismo se passasse do horizonte. Sua inteno era navegar at o horizonte.
       E como tinham vindo parar na Terra?
       Pois . Alguma coisa deu errado.
       Tinham descido na Terra, porque faltara lenha para a caldeira que acionava as ps que moviam o barco. Ento aquilo era um barco? Bom, a idia fora a de fazer 
um barco. S que em vez de flutuar, ele subira. Um fracasso. Os homenzinhos convidam os cientistas a visitarem a nave. Entram pelo mesmo buraco de madeira da nave, 
que depois  tapado com uma prancha e a prancha pregada na parede. Outra boa idia que levaro da Terra  a da dobradia de porta.
       O interior da nave  todo decorado com cortinas de veludo vermelho. H vasos com grandes palmas, lustres, divs forrados com cetim. Um dos homenzinhos explica 
que tambm tinham um piano de cauda, mas que o queimaram na caldeira quando faltou lenha. Tudo do mais moderno.
       ? E que mensagem vocs trazem para o povo da Terra? ? pergunta um dos cientistas.
       Os homenzinhos se entreolham. No vieram preparados. Mas como a Terra os recebeu to bem, resolvem revelar o segredo mais valioso da sua civilizao. A frmula 
de transformar qualquer metal em ouro.
       ? Vocs conseguiram isso? ? espanta-se um cientista.
       ? Ainda no ? responde um homenzinho ? mas  s uma questo de tempo. Nossos cientistas trabalham sem cessar na frmula, queimando velas toda a noite.
       ? Velas? L no h eletricidade?
       ? Elequ?
       ? Eletricidade. Energia eltrica. As coisas l so movidas a qu?
       ? A vapor.  tudo com caldeira.
       ? Mas isso no  incmodo?
       ? s vezes. O barbeador porttil, por exemplo. precisa de dois para segurar. Mas o resto...
       
       
       
       
       
    Ela
       
       
       Ainda me lembro do dia em que ela chegou l em casa. To pequenininha! Foi uma festa. Botamos ela num quartinho dos fundos. Nosso filho ? naquele tempo s 
tnhamos o mais velho ? ficou maravilhado com ela. Era um custo tir-lo da frente dela para ir dormir.
       Combinamos que ele s poderia ir para o quarto dos fundos depois de fazer todas as lies.
       ? Certo, certo.
       ? Eu no ligava muito para ela. S para ver um futebol, ou poltica. Naquele tempo, tinha poltica. Minha mulher tambm no via muito. Um programa humorstico, 
de vez em quando. Noites Cariocas... Lembra de Noites Cariocas?
       ? Lembro. Vagamente. O senhor vai querer mais alguma coisa? 
       ? E me serve mais um destes. Depois decidimos que ela podia ficar na copa. A ela j estava mais crescidinha. Jantvamos com ela ligada, porque tinha um programa 
que o garoto no queria perder. Capito Qualquer Coisa. A empregada tambm gostava de dar uma espiada. Jos Roberto Kelly. No tinha um Jos Roberto Kelly?
       ? No me lembro bem. O senhor no leve a mal, mas no posso servir mais nada depois deste. Vamos fechar.
       ? Minha mulher nem sonhava em botar ela na sala. Arruinaria toda a decorao. Nessa poca j tinha nascido o nosso segundo filho e ele s ficava quieto, para 
comer, com ela ligada. Quer dizer, aos poucos ela foi afetando os hbitos da casa. E ento surgiu um personagem novo nas nossas vidas que iria mudar tudo. Sabe quem 
foi?
       ? Quem?
       ? O Sheik de Agadir. Eu, se quisesse, poderia processar o Sheik de Agadir. Ele arruinou o meu lar.
       ? Certo. Vai querer a conta?
       ? Minha mulher se apaixonou pelo Sheik de Agadir. Por causa dele, decidimos que ela poderia ir para a sala de visitas. Desde que ficasse num canto, escondida, 
e s aparecesse quando estivesse ligada. Ns tnhamos uma vida social intensa. Sempre iam visitas l em casa. Tambm saamos muito. Cinema, teatro, jantar fora. 
Eu continuava s vendo futebol e notcia. Mas minha mulher estava sucumbindo. Depois do Sheik de Agadir, no queria perder nenhuma novela.
       ? Certo. Aqui est a sua conta. Infelizmente, temos que fechar o bar.
       ? Eu no quero a conta. Quero outra bebida. S mais uma.
       ? Est bem... S mais uma.
       ? Nosso filho menor, o que nasceu depois do Sheik de Agadir, no saa da frente dela. Foi praticamente criado por ela.  mais apegado a ela do que  prpria 
me. Quando a me briga com ele, ele corre para perto dela para se proteger. Mas onde  que eu estava? Nas novelas. Minha mulher sucumbiu s novelas. No queria 
mais sair de casa. Quando chegava visita, ela fazia cara feia. E as crianas, claro, s faltavam bater em visita que chegasse em horrio nobre. Ningum mais conversava 
dentro de casa Todo mundo de olho grudado nela. E ento aconteceu outra coisa fatal. Se arrependimento matasse...
       ? Termine a sua bebida, por favor. Temos que fechar.
       ? Foi a Copa do Mundo. A de 74. Decidi que para as transmisses da Copa do Mundo ela deveria ser maior, bem maior. E colorida. Foi a minha runa. Perdemos 
a Copa, mas ela continua l, no meio da sala. Gigantesca. E o mvel mais importante da casa. Minha mulher mudou a decorao da sala para combinar com ela. Antigamente 
ela ficava na copa para acompanhar o jantar. Agora todos jantam na sala para acompanh-la.
       ? Aqui est a conta.
       ? E, ento, aconteceu o pior. Foi ontem. Era hora do Dancin'Days e bateram na porta. Visitas. Ningum se mexeu. Falei para a empregada ir abrir a porta, mas 
ela fez "Shhh!" sem tirar os olhos da novela. Mandei os filhos, um por um, abrirem a porta, mas eles nem me responderam. Comecei a me levantar. E ento todos pularam 
em cima de mim. Sentaram no meu peito. Quando comecei a protestar, abafaram o meu rosto com a almofada cor-de-tijolo que minha mulher comprou para combinar com a 
maquilagem da Jlia. S na hora do comercial, consegui recuperar o ar e a sentenciei, apontando para ela ali, impvida, no meio da sala: "Ou ela, ou eu!" O silncio 
foi terrvel.
       ? Est bem. Mas agora v para casa que precisamos fechar. J est quase clareando o dia...
       ? Mais tarde, depois da Sesso Coruja, quando todos estavam dormindo, entrei na sala, p ante p. Com a chave de parafuso na mo. Meu plano era atac-la por 
trs, abri-la e retirar uma vlvula qualquer. No iria adiantar muita coisa, eu sei. Eles chamariam um tcnico s pressas. Mas era um gesto simblico. Ela precisava 
saber quem  que mandava dentro de casa. Precisava saber que algum no se entregava completamente a ela, que algum resistia. E ento, quando me preparava para 
soltar o primeiro parafuso, ouvi a sua voz. "Se tocar em mim, voc morre". Assim. Com toda a clareza. "Se tocar em mim, voc morre". Uma voz feminina, mas autoritria, 
dura. Tremi. Ela podia estar blefando, mas podia no estar. Agi depressa. Dei um chute no fio, desligando-a da tomada e pulei para longe antes que ela revidasse. 
Durante alguns minutos, nada aconteceu. Ento ela falou outra vez. "Se no me ligar outra vez em um minuto, voc vai se arrepender". Eu no tinha alternativa. Conhecia 
o seu poder. Ela chegara l em casa pequeninha e aos poucos foi crescendo e tomando conta. Passiva, humilde, obediente. E vencera. Agora chegara a hora da conquista 
definitiva. Eu era o nico empecilho  sua dominao completa. S esperava um pretexto para me eliminar com um raio catdico. Ainda tentei parlamentar. Pedi que 
ela poupasse minha famlia. Perguntei o que ela queria, afinal. Implorei. Nada. S o que ela disse foi "Voc tem 30 segundos".
       ? Muito bem. Mas preciso fechar. V para casa.
       ? No posso.
       ? Por qu?
       ? Ela me proibiu de voltar l.
       
       
       
       
       
    Os profissionais liberais e a morte
       
       
       O nome  Ginstica para Executivos, mas entre os freqentadores da Academia do Paulo os executivos esto em minoria. A maioria  de profissionais liberais 
autnomos. Todos entre 40 e 45 anos, naquela faixa de idade em que o homem, subitamente, descobre a prpria mortalidade e resolve que s o Cooper no adianta. Liberais, 
autnomos, sedentrios e assustados. O Paulo sabe exatamente o que eles querem. Na primeira entrevista, com seu jeito expansivo de ex-remador do Flamengo, o Paulo 
d um soco no ombro do novo pupilo e grita:
       ? Eu te conheo!
       O outro massageia o ombro, meio sem graa.
       ? Eu no estou bem lembrado...
       ? No, nunca nos vimos antes. Mas eu sei tudo sobre voc. Conheo essa barriga. Voc passa o dia inteiro sentado. Quando chega em casa no tem nimo para 
nada. Nos fins de semana sai a passear de carro ou fica atirado na frente da televiso. Dieta irregular. Est bebendo demais. Muito cigarro.
       Tentou fazer Cooper, mas no durou uma semana. J passou dos 40 e acha que  preciso reagir antes que seja tarde. Por isso veio ao Paulo. Estou certo ou 
estou errado?
       ? Est certo.  isso mesmo.
       Paulo d uma gargalhada e outro soco no ombro do novo membro, que naquela noite no conseguir mover os braos. Mas dormir feliz. O sofrimento comeou. 
E se di  porque deve estar fazendo bem.
       Paulo est perto dos 50, mas tem o corpo de um atleta.  uma porta. Com a camiseta sempre bem esticada sobre o trax estufado, caminha entre as suas vtimas 
na hora da ginstica.
       ? Vamos l, seus moles!
       ? Vamos sacudir as banhas. 
       ? Isso a no  traseiro,  reboque.
       ? Um, dois, um, dois. Fora! Esto pensando que isto aqui  o qu, expresso corporal? Tm que fazer fora.
       Mesmo quando d um descanso para a turma, Paulo no pra de falar.
       ? Cada centmetro a mais na cintura  um ano a menos de vida.
       E d um soco na prpria barriga.
       ? Olha a. Uma tbua.
       Os profissionais liberais, ofegantes, escorando-se nas paredes, olham para Paulo com um misto de repulsa e adorao. Ele os redimir pelo martrio. Purgar 
do seu corpo, gota a gota, cada gole de chope indevido, cada garfada de gordura saturada, cada excesso indulgido. Paulo os salvar da morte nem que isto os mate.
       Paulo gosta de marcar o ritmo das ginsticas com uma ladainha macabra. Grita.
       ? Cigarro!
       E o grupo tem que berrar:
       ? Mata!
       ? Gordura!
       ? Mata!
       ? Indolncia!
       ? Mata!
       ? Bebida!
       ? Mata!
       No vestirio, antes ou depois das sesses, os profissionais liberais s tm um assunto. No  mulher nem futebol.
       ? Amigo meu. Trinta e oito anos. Corao.
       ? Fulminado!
       ? ?
       ? Caiu na calada. Trinta e oito anos.
       ? Puxa.
       ? Tambm, no se cuidava...
       Um dia chegam  Academia e a encontram fechada. O que houve? Ningum sabe. A recepcionista no est. Perguntam no bar do lado.
       ? O seu Paulo? Olha, no vi ele hoje. Ele sempre chega s seis da manh, depois da sua corrida na praia. Passa por aqui, toma o seu copo de leite e vai para 
a Academia. Mas hoje no apareceu.
       ? Coisa estranha.
       ? Talvez algum problema em casa.
       ? O Paulo  casado?
       O dono do bar tambm no sabe. Pela cabea de todo o grupo, ecoa a mesma frase:
       ? Mulher!
       ? Mata!
       O grupo decide que o negcio  ir trabalhar, porque hoje no tem ginstica. Do uma ltima olhada na porta da Academia. Nisso, chega a recepcionista. Tem 
os olhos vermelhos de quem esteve chorando.
       ? O que foi, dona Magali?
       ? O seu Paulo...
       ? Que tem?
       ? Morreu esta madrugada. Corao.
       Abre-se uma clareira de espanto. 
       ? O Paulo?!
       ? Me avisaram agora. Vim aqui buscar as coisas dele. No sei, achei que ele gostaria de ser enterrado de Adidas...
       Ningum do grupo consegue falar. Lentamente, em silncio, os profissionais liberais derivam para o bar. Alinham-se contra o balco. O dono do bar pergunta 
o que aconteceu. Ningum se anima a contar. O dono do bar ento pergunta se vo querer alguma coisa. Os profissionais liberais se entreolham. Finalmente, um deles 
diz:
       ? Me d uma cerveja.
       Outro pede um bolinho de bacalhau.
       Outro diz que no tomou nada de manh e pede uma vitamina de abacate. Outro suspira e pergunta:
       ? No se consegue umas batatinhas?
       
       
       
       
       
    Caso de divrcio (II)
       
       
       O apelido dele ? Fuminho ? tem origens que  melhor no investigar. Era o pulha perfeito. Um mau-carter to completo que at despertava uma certa ternura 
nas pessoas. Os amigos diziam "flor de cafajeste" como quem diz "flor de sujeito", e contavam suas aventuras com grande admirao.
       ? Sabem a ltima do Fuminho?
       ? Conta, conta...
       Um dia o Fuminho chegou srio no grupo do cafzinho. E, ante o espanto geral, declarou que ia se regenerar. Alguns tentaram cham-lo  razo.
       ? Pensa no que voc vai fazer, Fuminho.
       ? J me decidi.
       Houve um certo mal-estar no grupo. Que aumentou quando, num gesto indito, o Fuminho pagou o prprio cafzinho antes de ir embora. Todos se sentiram vagamente 
trados. E durante muitos dias circularam boatos alarmantes sobre a nova condio do Fuminho.
       ? Est fazendo o cursilho. Sei de fonte segura.
       ? Internou-se numa clnica. Diz que no ficar vcio sobre vcio.
       ? Est na PUC fazendo Comunicaes Sociais e aderiu  macrobitica.
       ? Tem mulher no meio. Tem que haver.
       Tinha, Aderbal ? era esse o nome correto do ex-Fuminho ? ia casar com a filha do dono de dezessete terrenos. O pai, que conhecia a reputao do Fuminho, mas 
se sentia incapaz de demover a filha da fulminante paixo pelo crpula, chamou-o para uma conversa.
       ? Quanto tu queres para sair do Estado?
       ? No quero nada.
       ? Te arranjo uma representao no Acre. Dinheiro certo, e l no se gasta nada. Em 10 anos tu ficas milionrio e voltas.
       ? Eu s quero casar com a Estela Maris.
       A, o velho se levantou, pegou o pulha pela frente da camisa de couro de cobra, encostou na parede e disse, quase mordendo o nariz do genro inevitvel:
       ? T bem, malandro. Casa. Mas na primeira que tu me fizeres eu te quebro a cabea. Eu te quebro a cabea!
       E deu com a cabea do noivo na parede, como amostra.
       Casaram. Os amigos do Aderbal ficaram fora da igreja, de cara feia, e na sada do casal por pouco no vaiaram a cena.
       ? Ser que ele entrou na linha mesmo?
       ? No sei. Olha que so dezessete terrenos.
       ? No dou seis meses para ele ter uma recada.
       A Estela Maris no era muito bonita. Era at um pouco parecida com o Fantoni. E depois do casamento, engordou de forma assustadora. E aconteceu o seguinte: 
como, depois de seis meses, o Aderbal continuasse sendo um marido exemplar, a Estela Maris reclamou. O que  que ele estava tramando?
       ? Eu? Nada, u.
       Aderbal trabalhava na transportadora do sogro. Ia de casa para o trabalho e do trabalho para casa, e dormia antes da novela das dez. Era fiel como um cachorro. 
E a Estela Maris ? que casara com Fuminho para ser enganada, para ser apontada na rua como a pobre que tinha de aturar o crpula, que escolhera o pior carter que 
conhecia para marido, porque s ele satisfaria as suas fantasias de renncia e drama ? passou a atormentar o Aderbal. Queixou-se para o pai de que o Aderbal no 
a fazia feliz. E o pai pegou o Aderbal depois do expediente e deu uma surra de amassar os arquivos.
       A situao est assim. A Estela Maris gorda e descontente, os amigos do Fuminho desiludidos da vida e o Aderbal apanhando duas vezes por semana. Uma vtima 
do sistema.
       
       
       
       
       
    Ed Mort e o anjo barroco
       
       
       Mort. Ed Mort. Detetive particular. Est na plaqueta. Durante meses ningum entrara no meu escri ? escritrio  uma palavra grande demais para descrev-lo 
? a no ser cobradores, que eram expulsos sob ameaas de morte ou coisa pior. De repente, comeou o movimento. Entrava gente o dia inteiro. Gente diferente. At 
as baratas estranharam e fizeram bocas. No levei muito tempo para descobrir o que tinha havido. Algum trocou a minha plaqueta com a da escola de cabeleireiros, 
ao lado. A escola de cabeleireiros passou o dia vazia. Voltaire, o rato albino, que subloca um canto da minha sala, emigrou para l. Quando recoloquei a plaqueta 
no lugar, Voltaire voltou. Ele gosta de sossego. Mort. Ed Mort. Est na plaqueta certa.
       Eu estava pensando no meu jantar da noite passada ? isto , em nada ? quando ela entrou. Nem abri os olhos. Disse: "A escola de cabeleireiros  ao lado". 
Mas quando ela falou, abri os olhos depressa. Se a sua voz pudesse ser engarrafada, seria vendida como afrodisaco. Ela no queria a escola de cabeleireiros.
       ? Preciso encontrar o meu marido.
       ? Claro ? disse eu. ? V falando que eu tomo nota. Meu bloco de notas fora levado pelas baratas. Uma ao de efeito psicolgico. O bloco no lhes serviria 
para nada. S queriam me desmoralizar. Peguei um carto que um dos pretendentes a cabeleireiro deixara em cima da minha mesa, com um olhar insinuante, no dia anterior. 
Tenho um certo charme rude, no nego. Sou violento. Sorrio para o lado. Uso costeletas. No carto estava escrito Joli Decoraes e um nome, Dorilei. Virei do outro 
lado. Comecei a escrever enquanto ela falava. A Bic era alugada.
       ? No fui  polcia para evitar o escndalo. Meu marido  de uma famlia conhecida. Isto no pode sair nos jornais.
       Escrevi: "Linda. Linda!"
       ? Somos muito ricos. Meu marido vive de rendas. Desapareceu h uma semana.
       Escrevi: "Se eu conseguir que ela prove o meu fettucine, est no papo". Ela disse:
       ? Ele saiu para devolver um anjo barroco a uma loja de decoraes. Descobriu que o anjo era falso. A loja se chamava Joli Decoraes.
       Escrevi: "Epa!" Era o nome do carto. Pedi para ela esperar e fui at  escola de cabeleireiros, ao lado. Dorilei estava tendo trabalho para dominar o boufant.
       Recebeu-me com um sorriso brejeiro. Agarrei-o, com dificuldade, pela camiseta colant. A escola de cabeleireiros estava cheia. Houve gritos. Senti que algum 
tentava me arranhar por trs. Dei-lhe um cotovelao. Bateu no medalho. Doeu, mas doeu mais nele. Com o rabo do olho vi que outro se aproximava aos pulos. Estava 
armado com um pente eltrico. Derrubei um secador de cabelo no seu caminho. Fiz Dorilei rodopiar e o usei como um escudo, ameaando quebrar os seus dois pulsos. 
Isto os deteve. Mandei Dorilei falar, e depressa. Qual era a sua ligao com a Joli Decoraes?
       ? Trabalhei l at ontem. No pude continuar. O ambiente! Por isso vim aprender a ser cabeleireiro.
       O dono da Joli Decoraes tinha se metido numa encrenca. Vendera um anjo barroco falso a um ricao. O ricao ameaara denunci-lo. Tinham se trancado no escritrio 
de Randal, o dono, durante horas. Uma briga feia. No fim, saram do escritrio e da loja.
       ? Os dois juntos?
       ? Juntinhos.
       Randal tinha um stio em Terespolis. O endereo foi a ltima informao que tirei de Dorilei, antes de atir-lo contra a parede. Sa sob vaias. Gente intolerante. 
Mort. Ed Mort. Est na plaqueta.
       Um detetive particular deve ter o poder da deduo. Deve procurar pistas e segui-las, no importa o risco. Mas s vezes a coincidncia ajuda. Disse para ela 
que sabia onde procurar o seu marido. Ela se atirou nos meus braos. As baratas, revoltadas, fizeram uma pequena dana de protesto. Voltaire nem olhou. Ela insistiu 
em ir comigo a Terespolis. Iramos no seu carro. O meu estava num estacionamento e eu no tinha dinheiro para pagar a estada. Trs anos. Eu s vezes ia visit-lo 
e chutar os pneus. Sou assim. Sentimental. Sei l.
       No caminho para Terespolis, discutimos o caso. O marido podia ter sido seqestrado. Ou ento ? foi ela mesmo quem disse ? eliminado, para no contar o que 
sabia sobre o anjo barroco. Talvez existisse uma quadrilha de falsificadores de anjos. Como o marido era bem relacionado no meio de compradores de antigidades, 
uma palavra sua podia arruinar os falsificadores. Sugeri que avisssemos  polcia. Ela disse que confiava em mim. Perguntou se eu estava armado. Respondi que sim. 
Meu 38 estava empenhado, mas canivete tambm  arma. Pensei: se eu morrer por ela, ela ser minha devedora. Mas eu no estarei aqui para cobrar. Sorri com o lado 
da boca que ela podia ver, mas o outro lado pendeu de preocupao. Paradoxo. Perigo. Mame disse que devia estudar contabilidade.
       No foi preciso chegar at  casa. De uma colina, avistamos o jardim. Randal e o marido dela caminhavam por entre os canteiros floridos. Estavam de mos dadas.
       Na volta para o Rio, ela no disse nada. Pensei em convid-la a deixar aquela vida ? apartamento na Vieira Souto, empregados, iates, viagens  Europa, aquela 
sujeira ? e se juntar a mim. Meu fettucine com vinho Boca Negra a faria esquecer tudo. Tenho tudo que o Agnaldo Timteo j gravou e ainda vou comprar uma eletrola. 
Perguntei se ela abandonaria o marido. Ela riu e perguntou se eu estava doido. Deixou-me na galeria. Esqueci de cobrar pelo trabalho.
       O escritrio estava todo revirado. Frases escritas a batom nas paredes. A vingana dos cabeleireiros. As baratas s esperavam para ver a minha cara. Voltaire 
mudou-se para a loja de carimbos. Mort. Ed Mort. Estava na plaqueta, mas o Dorilei atirou no cho e sapateou em cima.
       
       
       
       
       
    De ressaca
       
       
       Hoje, existem plulas milagrosas, mas eu ainda sou do tempo das grandes ressacas. As bebedeiras de antigamente eram mais dignas, porque voc as tomava sabendo 
que no dia seguinte estaria no inferno. Alm de sade era preciso coragem. As novas geraes no conhecem ressaca, o que talvez explique a falncia dos velhos valores. 
A ressaca era a prova de que a retribuio divina existe e que nenhum prazer ficar sem castigo. Cada porre era um desafio ao cu e s suas frias. E elas vinham 
? Nusea, Azia, Dor de Cabea, Dvidas Existenciais ? s golfadas. Hoje, as bebedeiras no tm a mesma grandeza. So inconseqentes, literalmente.
       No  que eu fosse um bbado, mas me lembro de todos os sbados de minha adolescncia como uma luta desigual entre o cuba-livre e o meu instinto de autopreservao. 
O cubalibre ganhava sempre. J dos domingos me lembro de muito pouco, salvo a tontura e o desejo de morte. Jurava que nunca mais ia beber, mas, antes dos trinta, 
"nunca mais" dura pouco. Ou ento o prximo sbado custava tanto a chegar que parecia mesmo uma eternidade. No sei o que o cuba-libre fez com meu organismo, mas 
at hoje quando vejo uma garrafa de rum os dedos do meu p encolhem.
       Tentava-se de tudo para evitar a ressaca. Eu preferia um Alka-Seltzer e duas aspirinas antes de dormir. Mas no estado em que chegava em casa nem sempre conseguia 
completar a operao. As vezes dissolvia as aspirinas num copo de gua, engolia o Alka-Seltzer e ia borbulhando para a cama, quando encontrava a cama.
       Mas os mtodos variavam. Por exemplo:
       Um clice de azeite antes de comear a beber ? O estmago se revoltava, voc ficava doente e desistia de beber.
       Tomar um copo de gua entre cada copo de bebida ? O difcil era manter a regularidade.  certa altura, voc comeava a misturar a gua com a bebida, e em 
propores cada vez menores. Depois, passava a pedir um copo de outra bebida entre cada copo de bebida.
       Suco de tomate, limo, molho ingls, sal e pimenta ? Para ser tomado no dia seguinte, de jejum. Adicionando vodka ficava um Bloody Mary, mas isto era para 
mais tarde um pouco.
       O sumo de uma batata, sementes de girassol e folhas de gelatina verde dissolvidas em querosene ? Misturava-se tudo num prato pirex forrado com velhos cartes 
do sabonete Eucalol. Embebia-se um algodo na testa e deitava-se com os ps na direo da ilha da Pscoa. Ficava-se imvel durante trs dias, no fim dos quais o 
tempo j teria curado a ressaca de qualquer maneira.
       Uma cerveja bem gelada na hora de acordar ? Por alguma razo, o mtodo mais popular.
       Canja ? Acreditava-se que uma boa canja de galinha de madrugada resolveria qualquer problema. Era preciso especificar que a canja era para tomar, no entanto 
muitos mergulhavam o rosto no prato e tinham que ser socorridos s pressas antes do afogamento.
       Minha experincia maior  com o cuba-libre, mas conheo outros tipos de ressaca, pelo menos de ouvir falar. Voc sabia que o usque escocs que tomara na 
noite anterior era paraguaio quando acordava se sentindo como uma harpa guarani. Quando a bebedeira com usque falsificado era muito grande, voc acordava se sentindo 
como uma harpa guarani e no depsito de instrumentos da boate Catito's em Assuno.
       A pior ressaca era de gim. Na manh seguinte, voc no conseguia abrir os dois olhos ao mesmo tempo. Abria um e quando abria o outro o primeiro se fechava. 
Ficava com o ouvido to aguado que ouvia at os sinos da catedral de So Pedro, em Roma.
       Ressaca de martini doce: voc ia se levantar da cama e escorria para o cho como leo. Pior  que voc chamava a sua me, ela entrava correndo no quarto, 
escorregava em voc e deslocava a bacia.
       Ressaca de vinho. Pior era a sede. Voc se arrastava at  cozinha, tentava alcanar a garrafa de gua e puxava todo o contedo da geladeira em cima de voc. 
Era descoberto na manh seguinte imobilizado por hortigranjeiros e laticnios e mastigando um chuchu para alcanar a umidade. Era deserdado na hora.
       Ressaca de cachaa. Voc acordava sem saber como, de p, num canto do quarto. Levava meia hora para chegar at  cama porque se esquecera como se caminhava: 
era p ante p ou mo ante mo? Quando conseguia se deitar, tinha a sensao que deixara as duas orelhas e uma clavcula no canto. Olhava para cima e via que aquela 
mancha com uma forma vagamente humana no teto finalmente se definira. Era o Konrad Adenauer e estava piscando para voc.
       Ressaca de licor de ovos. Um dos poucos casos em que a lei brasileira permite a eutansia.
       Ressaca de conhaque. Voc acordava lcido. Tinha, de repente, resposta para todos os enigmas do Universo. A chave de tudo estava no seu crebro. Devia ser 
por isso que aqueles homenzinhos estavam tentando arrombar a sua caixa craniana. Voc sabia que era alucinao, mas por via das dvidas, quando ouvia falar em dinamite, 
saltava da cama ligeiro.
       Hoje no existe mais isto. As pessoas bebem, bebem e no acontece nada. No dia seguinte esto saudveis, bem dispostas e fazem at piadas a respeito. De vez 
em quando alguns dos nossos se encontram e se sadam em silncio. Somos como veteranos de velhas guerras lembrando os companheiros cados e o nosso herosmo annimo. 
Estivemos no inferno e voltamos, inteiros. Mais ou menos. Um brinde. E um Engov.
       
       
       
       
       
    O engano
       
       
       Morre todo mundo de envenenamento por pesticida, fome, radiao nuclear, monxido de carbono, antropofagia ? e sobra sobre a face da Terra apenas um casal 
de velhos, estranhamente imune a todas as desgraas. E as formigas.
       O velhinho e a velhinha deixam seu apartamento e caminham lentamente, para fora da cidade deserta. No tm mais nada a fazer na cidade. No tm mais filhos 
nem netos nem parceiros para o biriba. Todos os poos secaram. A comida acabou ou est envenenada. As ruas esto entulhadas de carcaas metlicas, carros e nibus 
abandonados anos atrs, quando o ltimo combustvel, um derivado de soja, terminou .
       O velhinho e a velhinha vo para o campo. Mas no existe mais campo. Em volta da grande cidade s existe um vasto depsito de lixo no-degradvel. E formigueiros.
       O cu est constantemente encoberto. Um vento morno sopra sem parar. O velhinho e a velhinha vo deixando suas roupas pelo caminho Precisam encontrar gua 
e comida. Ou ento tambm morrero.
       Caminham lentamente, pisando cuidadosamente no lixo. Latas. Muitas latas. Garrafas. Pedaos de pneus. Baterias. Radiadores. Tubos de televiso. Um sapato 
de mulher com o salto cravejado de brilhantes. Metade de uma guitarra eltrica. Frutas artificiais. Confete de plstico. Anncios de acrlico. Um trombone. Secadores 
de cabelo. Bisnagas de ketchup e mostarda. Paliteiros de plstico. Peas de metralhadora. Um escudo policial de fibra de vidro com a frase "sou da mame". Um rob 
decapitado. Fitas magnticas. Meias-calas. Uma decalcomania com os dizeres "Boutique para cachorro Ao Auau". Fivelas. Mais latas. Terminais de computadores (cobertos 
de formigas). O Pensador, de Rodin. Calculadoras de bolso. Grampos. Uma cpia em super-8 de Emmanuelle. Pincis-atmicos. Plulas. Ampolas.
       No horizonte, recortado contra o cu cor-de-areia, o esqueleto retorcido de um hotel Hilton.
       O velhinho e a velhinha chegam, nus, ao leito de um rio seco. O velhinho olha em volta, intrigado.
       ? Engraado...
       A velhinha olha para ele sem entender. O que pode ser engraado nesta desolao?
       ? Eu estou reconhecendo este lugar...
       ? Ns nunca estivemos aqui antes ? resmunga a velhinha, que daria tudo para fumar um cigarro. O que ela sente mais falta da civilizao sos os cigarros e 
as palavras-cruzadas.
       ? Voc est delirando, Ado
       ? Estivemos. Tenho certeza de que estivemos.
       ? A ltima vez que samos da cidade foi para ver aquela rvore que descobriram. A ltima rvore do mundo. Mas chegamos tarde. Foi tanta gente ver que a multido 
acabou pisoteando a rvore.
       ? Eu sei , eu sei . Mas poderia jurar que estivemos aqui antes. Talvez em outra encarnao...
       ? Bobagem ? diz a velhinha, irritada, dando tapas nas pernas para afastar as formigas.
       ? Aqui era um rio. Ali era tudo gramado. Mais para l havia um bosque...
       ? Imaginao sua. H anos que isto aqui est seco.
       ? Mas isso pode ter sido h geraes.
       ? Bobagem.
       ? Ns vivamos nus. Exatamente como estamos agora. ramos mais moos, claro. E no tnhamos vergonha.
       ? Eu quero um cigarro. Agento a fome e a sede, mas no a falta de cigarro...
       ? Tente se lembrar, Eva. Havia rvores de todos os tipos e todas davam frutos. Isto aqui era um paraso.
       A velhinha pra de espantar formigas. Estranho. Tambm se lembrou de alguma coisa. Vagamente.
       ? Paraso... ? diz ela, olhando em volta com novo interesse. ? Voc tem razo.
       ? Hein? Hein?
       ? Calma, Ado. Calma. Olha o corao.
       O velhinho j fez uma operao torxica para substituir uma artria. Mas est excitado, no consegue se controlar.
       ? Bem ali era a rvore, lembra? Voc comeu o fruto proibido da rvore e...
       ? Se me lembro! Depois disso, ns nunca mais fomos os mesmos. Mas isso faz mil anos.
       ? Mais, mais. Um milho de anos.
       ? Expulsaram-nos. Quem foi que nos expulsou?
       ? Deus. O Velho, em pessoa.
       ? Quer dizer que Deus falava conosco? Sem intermedirios?
       O velhinho est olhando para o cu. Teve uma idia.
       ? Quem sabe foi Ele que nos trouxe de volta? Vai nos dar outra chance. Fomos readmitidos.
       O velhinho sobe num formigueiro para ficar mais perto do cu. Chama:
       ? Deus!
       ? Olha o corao ? diz a velhinha.
       ? Deus! ? grita o velhinho, mais alto. Ouve-se uma voz vinda do alto:
       ? O que ?
       ? Quem fala  o Ado.
       ? No conheo nenhum Ado.
       ? Ado, o da Eva. No somos os originais, claro. Somos os ltimos descendentes deles. Estamos de volta, Senhor.
       ? No estou entendendo...
       ? O senhor nos criou, nos insuflou a vida inteira e disse que o mundo era nosso.
       ? Eu?!
       ? Foi h muito tempo, eu sei, mas o Senhor no pode ter esquecido. O Senhor falou conosco e...
       ? Deve haver algum engano ? diz a voz do alto. ? Eu estava falando com um casal de formigas, atrs de vocs.
       
       
       
       
       
    A metamorfose
       
       
       Uma barata acordou um dia e viu que tinha se transformado num ser humano. Comeou a mexer suas patas e descobriu que s tinha quatro, que eram grandes e pesadas 
e de articulao difcil. Acionou suas antenas e no tinha mais antenas. Quis emitir um pequeno som de surpresa e, sem querer, deu um grunhido. As outras baratas 
fugiram aterrorizadas para trs do mvel. Ela quis segui-las, mas no coube atrs do mvel. O seu primeiro pensamento humano foi: que vergonha, estou nua! O seu 
segundo pensamento humano foi, que horror! Preciso me livrar dessas baratas!
       Pensar, para a ex-barata, era uma novidade. Antigamente ela seguia o seu instinto. Agora precisava raciocinar. Fez uma espcie de manto da cortina da sala 
para cobrir sua nudez. Saiu pela casa, caminhando junto  parede, porque os hbitos morrem devagar. Encontrou um quarto, um armrio, roupa de baixo, um vestido. 
Olhou-se no espelho e achou-se bonita. Para uma ex-barata. Maquilou-se. Todas as baratas so iguais, mas uma mulher precisa realar a sua personalidade. Adotou um 
nome: Vandirene. Mais tarde descobriu que s um nome no bastava. A que classe pertencia? Tinha educao? Referncias? Conseguiu, a muito custo, um emprego como 
faxineira. Sua experincia de barata lhe dava acesso a sujeiras mal suspeitadas, era uma boa faxineira.
       Difcil era ser gente. As baratas comem o que encontram pela frente. Vandirene precisava comprar sua comida e o dinheiro no chegava. As baratas se acasalam 
num roar de antenas, mas os seres humanos no. Se conhecem, namoram, brigam, fazem as pazes, resolvem se casar, hesitam. Ser que o dinheiro vai dar? Conseguir 
casa, mveis, eletrodomsticos, roupa de cama, mesa e banho. A primeira noite. Vandirene e seu torneiro mecnico. Difcil. Voc no sabe nada, bem? Como dizer que 
a virgindade  desconhecida entre as baratas? As preliminares, o nervosismo. Foi bom? Eu sei que no foi. Voc no me ama. Se eu fosse algum voc me amaria. Vocs 
falam demais, disse Vandirene. Queria dizer, vocs, os humanos, mas o marido no entendeu; pensou que era vocs, os homens. Vandirene apanhou. O marido a ameaou 
de morte. Vandirene no entendeu. O conceito de morte no existe entre as baratas. Vandirene no acreditou. Como  que algum podia viver sabendo que ia morrer?
       Vandirene teve filhos. Lutou muito. Filas do INPS. Creches. Pouco leite. O marido desempregado. Finalmente, acertou na esportiva. Quase quatro milhes. Entre 
as baratas, ter ou no ter quatro milhes no faria diferena. A barata continuaria a ter o mesmo aspecto e a andar com o mesmo grupo. Mas Vandirene mudou. Empregou 
o dinheiro. Trocou de bairro. Comprou casa. Passou a vestir bem, a comer e dar de comer de tudo, a cuidar onde colocava o pronome. Subiu de classe. (Entre as baratas, 
no existe o conceito de classe.) Contratou babs e entrou na PUC. Comeou a ler tudo o que podia. Sua maior preocupao era a morte. Ela ia morrer. Os filhos iam 
morrer. O marido ia morrer ? no que ele fizesse falta. O mundo inteiro, um dia, ia desaparecer. O sol.
       O Universo. Tudo. Se espao  o que existe entre a matria, o que  que fica quando no h mais matria? Como se chama a ausncia do vazio? E o que ser de 
mim quando no houver mais nem o nada? A angstia  desconhecida entre as baratas.
       Vandirene acordou um dia e viu que tinha se transformado de novo numa barata. Seu penltimo pensamento humano foi, meu Deus, a casa foi dedetizada h dois 
dias! Seu ltimo pensamento humano foi para o seu dinheiro rendendo na financeira e o que o safado do marido, seu herdeiro legal, faria com tudo. Depois desceu pelo 
p da cama e correu para trs de um mvel. No pensava mais em nada. Era puro instinto. Morreu em cinco minutos, mas foram os cinco minutos mais felizes da sua vida. 
Kafka no significa nada para as baratas.
       
       
       
       
       
    Solido
       
       
       Finalmente liberadas as gravaes que a NASA fez das experincias realizadas com o tenente da Marinha John Smith para testar o comportamento humano em condies 
de completo isolamento durante longos perodos de tempo, iguais ao que o homem ter que enfrentar na explorao do espao. O tenente Smith foi escolhido pelas suas 
perfeitas condies fsicas e mentais. Foi colocado dentro de um simulador de vo com comida bastante para dois anos e os instrumentos que normalmente levaria numa 
misso, inclusive um computador. Todos os dias Smith teria que fazer um relatrio verbal para que seu estado fosse avaliado. O que segue so trechos das gravaes 
feitas dos seus relatrios.
       Primeiro dia. "Meu nome  John Smith. Estou timo. Passei todo o dia me familiarizando com este meu pequeno lar. J desafiei o computador para uma partida 
de xadrez. Acho que nos daremos muito bem. (Risadas.) S tenho uma queixa: esta comida em bisnagas no se parece nada com a comida de mame... (Risadas.) Dois mais 
dois so quatro. Encerro".
       Uma semana depois. "John Smith aqui. Continuo muito bem. Ainda no consegui vencer nenhuma partida de xadrez deste computador. Acho que ele est trapaceando. 
(Risadas.) Trs vezes trs  nove. Encerro".
       Um ms depois. "(Risadas.) Meu nome  John maldito Smith. Tudo bem. Um pouco entediado, mas tudo bem. Consegui finalmente ganhar uma do computador, embora 
ele negue. Vou ter que derrot-lo de novo para convencer este cretino. Calculei mal e j comi todas as bisnagas de torta de ma. Agora s tem maldito limo. Dois 
vezes trs so, deixa ver. Seis. Quer dizer... No. Est certo. Seis. Encerro".
       Dois meses depois. "Vocs sabem quem eu sou. John qualquer coisa. No agento mais a arrogncia deste computador. Ele no  humano! Insiste que me deu xeque-mates 
inexistentes e se recusa a admitir que est errado. Tivemos uma briga feia hoje. Dois mais dois so... sei l. Encerro".
       Quatro meses. "Al. Tenho provas irrefutveis de que o computador est tentando boicotar esta misso! Ouvi claramente ele dizer alguma coisa desagradvel 
sobre mame. Canta Strangers in the Night em falsete e no me deixa dormir. No me responsabilizo pelo que possa acontecer. Estou muito bem, lcido e bem disposto. 
Com licena que esto batendo na porta".
       Sexto ms. "Meu nome  Smith. Maggie Smith. Por hoje  s".
       Oitavo ms. "(Risadas)"
       Nono ms. "Smith aqui. Aconteceu o inevitvel. Matei o computador. Estvamos com um problema, onde colocar as bisnagas vazias, e ele fez uma sugesto deselegante. 
Agora est morto. No tenho remorsos. Ontem recebi a visita de um vendedor de enciclopdias. No sei como ele conseguiu entrar aqui. Dois mais dois geralmente  
nove. Encerro".
       Dcimo ms. "Meu nome  Brown ou Taylor. Um mais um  umum. Dois mais dois, no. Iniciei um projeto importantssimo. Com as bisnagas vazias e partes do computador, 
estou construindo uma mulher".
       Um ano. "Redford aqui. Sinto falta de um espelho para poder ver a minha barba, que est bem comprida. A mulher que fiz de bisnagas vazias e partes do falecido 
computador ficou tima mas, infelizmente, nossos gnios no combinavam. Ela foi para casa de seus pais. Dois mais dois..."
       Dcimo-quarto ms. "Minha barba est tentando boicotar a misso! Faz um estranho barulho eletrnico e vrias vezes j tentou me estrangular. Deve ser comunista. 
Comearam a chegar as enciclopdias que comprei. Tenho jogado xadrez comigo mesmo e ganho sempre".
       Dcimo-quinto ms. "Aqui fala Zaratustra. Ateno. Encontrei pegadas humanas dentro da cabine. Estou investigando. Mandarei um relatrio depois. Duas vezes 
trs  demais. Encerro".
       No dia seguinte. "Grande notcia. H outro ser humano dentro da cabine! Seu nome  Smith, John Smith, mas como o encontrei numa tera-feira o chamarei de 
"Quinta". Ele no fala, mas joga xadrez como um mestre. (Risadas). Talvez tenha que mat-lo".
       Neste ponto, os cientistas da NASA acharam melhor abrir a cpsula. Encontraram Smith com as mos em volta do prprio pescoo gritando: "Trapaceiro! Trapaceiro!"
       
       
       
       
       
    As noivas do Graja
       
       
       Acho que todos deviam ter uma noiva no Graja, principalmente os homens casados. Antes que me acusem de incentivar o adultrio e a licenciosidade suburbana, 
esclareo que minha noiva do Graja  puramente terica. E note que falo em noiva, no em amante. As noivas do Graja so castas e recatadas. S deixam pegar na 
mo e assim mesmo com recomendaes. Aquele montinho de carne na base do dedo, por exemplo, s depois de casados.
       Voc leva duas semanas para encostar, no na noiva do Graja, mas no porto da sua casa. Se tocar no seu cotovelo, soa um alarme dentro da casa e o irmo 
dela, ex-praquedista, vem ver o que est acontecendo. Um homem casado que tem uma noiva no Graja  mais fiel  sua mulher do que a sua mulher merece.  quase indispensvel 
para a felicidade de um casamento que o marido tenha uma noiva no Graja e a visite diariamente das 5 s 6. Menos s quintas, quando ela tem aula de piano.
       Como explicar o fascnio das noivas do Graja? No haver, na sua relao com ela, qualquer promessa sexual.
       Com sorte, depois de um ano e meio de noivado firme, voc morder a sua orelha. E ela pedir que voc nunca mais faa isso porque ela sente muitas ccegas, 
e, olha a, quase perdeu um brinco. Um dia, quando conseguir convencer o ex-praquedista a deix-la ir com voc at ao bar da praa tomar uma Mirinda, voc conseguir 
intrometer uma mo nervosa entre o seu brao nu e a blusa at quase em cima, mas a ela apertar o brao contra o corpo com fora e voc temer pela gangrena nos 
dedos.
       E a conversa? A coisa mais ntima que ela perguntar a voc ser:
       ? Acompanhas alguma novela?
       Voc experimentar com assuntos mais conseqentes.
       ? s ciumenta? Ou, afoitamente:
       ? Qual  teu sabonete?
       Mas ela repelir todas as tentativas de uma conversa sria. At rir quando voc tentar ser potico, pomba!
       ? Esta hora, este crepsculo, sei l...
       Ela se dobrar de tanto rir. E a me dela aparecer na janela para ver se voc no avanou na orelha outra vez.
       A vigilncia  constante. O pai dela ? aposentado, espiritualista ? usa um coldre preso  cinta. O coldre est vazio, mas o seu tamanho  eloqente: em algum 
lugar est guardada a grande arma com que ele zela pelo seu patrimnio, incluindo a virgindade da filha e uma coleo encadernada de Malba Tahan. Na nica vez em 
que conversar com ele voc ficar sabendo que ele j expeliu 17 pedras pela uretra e foi militante da UDN. Cuidado. A me tem bigode. Seus olhos pretos na janela 
so como dois faris que guiam a virtude de Graja para a cama, intacta, todas as noites.
       ? Sua me no v novela? 
       ? S a das oito.
       ? No tem o que fazer na cozinha?
       ? Temos empregada.
       ? Ela no...
       Mas a me interrompe:
       ? Olha esses cochichos, olha esses cochichos...
       As noivas do Graja tm um irmo menor que se diverte tentando chutar voc nas canelas. Um dia ele erra, acerta o muro e vai correndo dizer para a me que 
voc lhe bateu.
        uma provao noivar no Graja. Por que voc insiste?
       As noivas do Graja tm amigas que passam em bandos pela calada de braos dados e rindo, voc no tem a menor dvida, de voc.
        demais. Voc no precisa disso. O casamento est fora de questo. Voc j  casado. Ou tem outra noiva em algum bairro onde a vigilncia  menor e o acesso 
 mais fcil. Mas voc persiste. O fascnio  irresistvel. s seis em ponto, a me dela acende a luz do alpendre.  o sinal para voc ir embora. Voc jura que nunca 
mais volta.
       Mas a ela cospe fora o chicl e pergunta:
       ? Amanh voc vem? 
       E voc vai.
       
       
       
       
       
    R. C.
       
       
       R.C.  sempre o ltimo a sair,  noite, da ampla sala climatizada, sem janelas, com paredes de ao lixado, onde est o grande computador. Ele  o supervisor, 
a responsabilidade  sua. A rotina nunca varia. A pesada porta que veda a nica passagem entre a grande sala e o resto do prdio  fechada por um assistente que 
fica esperando do lado de fora enquanto R.C. percorre minuciosamente a sala, examinando todos os cantos e por baixo de todos os painis. Nem um mosquito pode ficar 
dentro da grande sala durante a noite. Uma vez R.C. descobriu no cho polido um grampo de cabelo que uma das programadoras deixou cair. Despediu a programadora e 
deu ordens para que todas as outras usassem toucas de enfermeira para trabalhar. A assepsia devia ser absoluta na grande sala.
       O sonho de R.C. era substituir os programadores do grande computador por pequenos computadores, para que nada na grande sala fosse tocado por mos humanas. 
R.C. preferia que nada fosse tocado por mos humanas. Inclusive ele mesmo.
       Nessa noite R.C. examina a sala, assegura-se que a chave principal do grande computador est desligada e comunica-se com o seu assistente do outro lado da 
porta pelo interfone. O assistente deve abrir a porta apenas o tempo suficiente para R.C. sair e fech-la de novo, antes que um mosquito possa entrar. Mas dessa 
vez a porta no abre. O que houve? O assistente diz que est fazendo tudo certo, mas a porta no se mexe. R.C. d ordens para o assistente ir para casa. Ele dormir 
dentro da sala e no dia seguinte um dos tcnicos da firma consertar a porta. O assistente vai embora. R.C. faz um travesseiro com o palet e deita no cho. Dorme. 
No sonha.
       No dia seguinte, os tcnicos da firma falam com R.C. pelo interfone. No podem fazer nada. A porta  americana, um modelo especial. S um americano no mundo 
sabe consert-la. Ele j foi chamado, mas demorar seguramente uns trs dias para chegar. Tudo bem, diz R.C. Ele pode agentar. Como se alimentar? Desenvolvem, 
com arames e pequenos potes, uma maneira de fazer chegar comida a R.C. atravs de um dos condutos de ar condicionado. A comida sempre chega fria, mas tudo bem. O 
ar no pode ser desligado porque a temperatura do grande computador deve ser constante. R.C. usa os mesmos potes em que recebe a comida para as suas evacuaes, 
e os manda de volta pelo conduto. Pelo mesmo trajeto chegam a R.C. os trabalhos mais urgentes para submeter ao computador. O prprio R.C. insistiu para que o trabalho 
do computador continuasse. Ele sozinho, controla o computador. Assim passam-se trs dias. R.C. no chega a pensar a respeito, mas se pensasse, concluiria: estava 
feliz como nunca estivera em sua vida. Intocado por mos humanas.
       No fim do terceiro dia, uma notcia. O tcnico americano, o nico homem do mundo que sabe abrir a porta, caiu da escada do avio ao desembarcar na cidade 
e morreu. S h uma coisa a fazer. Abrir um tnel numa das paredes de ao para resgatar R.C. Mas R.C. no admite isto. Diz que continuar dentro da grande sala, 
e trabalhando, at que entrem em contato com os fabricantes da porta e descubram como abri-la. Passa-se uma semana. Duas. Os tcnicos da fbrica americana chegam, 
examinam a porta, sacodem a cabea e dizem que s com dinamite. R.C. protesta. A exploso desregular o grande computador, talvez irremediavelmente. Deve haver outra 
soluo. Enquanto isto, ele permanecer no seu posto.
       Os superiores de R.C. no podem se queixar. O trabalho est indo bem. Pelo conduto de ar condicionado, R.C. recebe o input para o grande computador e a comida. 
Devolve as suas evacuaes e o print-out. Perguntam se ele quer receber jornais, revistas, livros. Ele recusa. Tudo bem. S pede gua, sabonete, uma esponja, cuecas 
e camisas. Passa-se um ano. Dois.
       Um dia, chamam R.C. pelo interfone e ele no responde. Mandam a sua comida e ele no devolve nada. O silncio dura trs dias. No quarto dia, quando o diretor 
tenta mais uma vez se comunicar com R.C., ouve apenas um gemido. Grita: "O que est acontecendo?" Por que R.C. no responde? Por que no manda mais os print-outs? 
R.C. responde que precisa deles. Para qu?
       ? Estou fazendo uma barraca ? diz R.C. e d uma gargalhada.
       Dinamitam a porta. Encontram R.C. de olhos arregalados, a barba comprida, tiritando de frio, tentando acender uma fogueira com tiras de grficos e a chispa 
de peas do computador que ele bate uma na outra, na frente d uma barraca feita de print-outs e cartes perfurados. Por toda a sala, h rvores feitas com cadeiras 
giratrias, mesas de ao e nos coloridos arrancados do computador. Muitas rvores.
       Mais tarde, restabelecido, R.C. conta que uma noite sentiu uma coisa quente subindo pela sua cala e quando viu, era um rato. Um sujo e desprezvel rato na 
sala do grande computador! Mas, quando ia mat-lo, sentiu o calor do seu plo e o seu sangue latejando e sentiu que podia ser um amigo. Chamou-o Eurico. Construiu 
a cabana para que pudessem ser felizes para sempre, no meio do pomar, naquela ilha deserta.
       
       
       
       
       
    Desculpas
       
       
       ? Al, Silveira?  o Pinto.
       ? Sim, Pinto. Como vai?
       ? Bem, bem. Quer dizer, mais ou menos. Que festo, ontem, hein?
       ? Pois .  sobre isso que eu queria falar com voc, Silveira.
       ? J sei. Voc pegou o meu leva tudo enganado.
       ? Leva-tudo?
       ? . No foi voc? Algum levou o meu leva-tudo.
       ? No fui eu, no. Eu estou telefonando para pedir desculpa, viu, Silveira?
       ? Desculpa?
       ? Pelo que eu disse para voc, ontem. Eu estava bebado. Eu sei que no  desculpa mas  isso a. Me desculpe
       ? Ora, o que  isso, Pinto?
       ? Bebi demais e disse bobagem. Para dizer a verdade eu nem me lembro o que foi que eu disse. Mas hoje o Roque me telefonou e disse que eu precisava pedir 
desculpas a voc. E eu estou pedindo.
       ? Por amor de Deus, Pinto. No precisava. O que  isso?
       ? Al, Roque?  o Silveira.
       ? Sim, Silveira. Que festa ontem, hein?
       -. Estava tima. Roque: o Pinto acaba de me telefonar para pedir desculpas pelo que ele me disse ontem.
       ? Ah, telefonou? Eu sabia. Ele  um bom-carter Quando bebe, perde as estribeiras, mas no fundo...
       ? Acontece que eu no sei o que foi que ele me disse. Estava mais bbado do que ele.
       ? Voc? No notei. Eu devia estar bbado.
       ? O que foi que ele me disse?
       ? Ora, Silveira, se voc no se lembra, melhor. Esquea.
       ? No. Agora eu preciso saber. Que foi que ele disse?
       ? No posso repetir.
       ? Mais algum ouviu?
       ? Sei l. O Chaves. O Chaves estava por perto.
       ? Obrigado. Por sinal, foi voc que ficou com o meu leva-tudo?
       ? Eu? No.
       ? Chaves?  o Silveira.
       ? Oi, bicho! Que festao, hein?
       ? Que foi que o Pinto me disse, ontem? Eu preciso saber.
       ? O Pinto? Que Pinto?
       ? O Pinto da Juraci. O baixinho.
       ? O que queria tirar a roupa?
       ? No sei. Isso eu no vi. Mas ele me disse umas coisas e isso no pode ficar assim. Preciso saber o que foi.
       ? E eu sei?
       ? Voc sabe mas no quer dizer porque  horrvel.  isso!
       ? No.
       ? Voc ficou com o meu leva-tudo?
       ? Tambm no.
       ? Al, Silveira?  o Pinto outra vez.
       ? Sim, Pinto.
       ? Olha, descobri que fiquei, sim, com o seu leva-tudo. Voc deve ter ficado com o meu. Ser que...
       ? No fiquei com o leva-tudo de ningum.
       ? Voc parece magoado...
       ? E no era para ficar? Olha, Pinto, eu no parto a tua cara no sei por qu.
       ? Mas voc aceitou as minhas desculpas!
       ? Pois voc devolve o meu leva-tudo e eu devolvo as suas desculpas. No aceito. No sei o que voc me disse, mas no desculpo.
       ? Eu tambm no sei o que eu disse, mas se voc no sabe o que eu disse e no me desculpa, ento o que eu disse estava certo e eu mantenho! Voc  exatamente 
o que eu disse, seja l o que for!
       ? Se eu no estivesse de ressaca, te arrebentava!
       ? Vem! Vem! Pode vir!
       
       
       
       
       
    A terra rida
       
       
       Eu envelheo, eu envelheo. Usarei minhas calas do bradas no comeo. Com vinte e poucos anos (h vinte e tantos anos) escrevi um estudo sobre T.S. Eliot 
e as agonias da poesia traduzida. Com ironia e erudio. Foi um sucesso instantneo. Pelo menos entre as dezessete pessoas que liam o suplemento literrio que o 
publicou. Um conto imitando Hemingway e uma adaptao de Auden mais tarde, j estavam me chamando de jovem promessa e nova voz da literatura nacional. Enquanto todos 
 minha volta ainda liam os franceses, eu explicava os ingleses e plagiava os americanos. Minha exegese definitiva de James Joyce estava pronta quando o suplemento 
literrio acabou. Procurei uma editora e propus a publicao do meu ensaio numa monografia. Dei outras idias. Faria tradues. Uma coleo da poesia anglo saxnica. 
Novos escritores americanos. E, se quisessem, um original meu, John dos Passos num cenrio carioca, a novela urbana que nos faltava. O editor se entusiasmou:
       ? timo, timo. Mas, no momento, fim de guerra, a crise do papel, coisa e tal, no d. Enquanto isso, voc no toparia traduzir este original que acabamos 
de comprar? Um manual de instruo sexual para adolescentes, sucesso nos Estados Unidos.
       ? Bem, eu...
       ? No  sacanagem no. Coisa sria. O autor  um mdico respeitadssimo l. Achamos que est na hora de lanar esse tipo de livro no Brasil. Vamos acabar 
com os tabus, a gerao de ps-guerra precisa aprender a encarar o sexo com seriedade.
       ?  verdade, eu no posso encarar o meu sem comear a rir ? brinquei. Mas aceitei. Precisava do dinheiro e da boa vontade do editor. S impus uma condio: 
assinar a traduo com um pseudnimo.
       ? timo, timo... ? disse o editor. Quero a traduo em um ms.
       ? Est bem ? suspirei.
        assim que acaba uma jovem promessa. No com um estrondo, mas com um suspiro.
       O livro do dr. Murray Brown se chamava Sex and You. Pensei em traduzir o ttulo para Sexo para Principiantes, mas isto destoaria do resto. O texto do dr. 
Brown no admitia sutilezas. Ele partia do pressuposto de que moos e moas de 13 a 19 anos viviam se perguntando para o que servia aquilo alm de fazer xixi, e 
explicava tudo em linguagem para cretinos. No foram poucas as vezes em que tive de resistir  tentao de acrescentar comentrios incrdulos entre parnteses, reticncias 
ambguas no fim de frases e Notas Safadas do Tradutor no p da pgina. O livro seria ridicularizado, pensei. O adolescente brasileiro sabia mais sobre sexo ao nascer 
do que o hipottico leitor americano no fim do livro. O captulo sobre masturbao era to cuidadoso nos seus termos que o leitor podia decidir nunca mais apalpar 
a prpria barriga na cama, sob pena de ficar cego... Mas eu estava errado. O livro foi um sucesso no Brasil tambm. Apesar da resistncia de certos grupos que protestaram 
contra o uso de termos crus como "baixo ventre" e "tecido erctil".
       Interrompi minha traduo dos Cantos de Ezra Pound para traduzir, s pressas, o segundo livro do dr. Brown, Sex and the Married You. Este comeava com um 
casal fictcio, Dick e Mary (que eu por pouco no chamei de Joozinho e Maria), na noite de npcias. Ambos tinham lido o primeiro livro do dr. Brown e, apesar de 
virgens, sabiam exatamente o que fazer, com preciso cronomtrica.
       Nesta mesma poca, me casei. Ela se chamava Dora. Uma das primeiras mulheres a fumar em pblico no Brasil. Era morena, formada em Letras, e encarara o meu 
sexo mais de uma vez antes do casamento. Fizemos coisas que Dick and Mary s ousariam fazer no dcimo primeiro livro do dr. Brown, vinte anos mais tarde (Sex and 
the Liberated You, proibido no Brasil). Nossa primeira filha, Manoela, nasceu junto com o terceiro livro traduzido do dr. Brown. Este era sobre a educao sexual 
dos filhos.
       Meu pseudnimo ? Alencar Alpio ? comeava a ficar conhecido. Uma crtica do quarto livro do dr. Brown (Sex and the Divorced You) se referia a mim como "o 
renomado sexlogo patrcio", na primeira vez que a palavra "sexlogo" apareceu em nossa imprensa. E ningum desmentiu. A Cruzeiro me entrevistou sobre frigidez feminina. 
("Sou contra", declarei). Enquanto isso a monografia sobre James Joyce que publiquei com meu nome verdadeiro e paguei com meu dinheiro verdadeiro, vendeu vinte exemplares, 
sendo que dez para uma tia muito querida. Meu estudo sobre o simbolismo do desalento aristocrtico em A Terra rida, de Eliot, apareceu num suplemento literrio 
paulista, que acabou logo em seguida, simbolicamente. Eu envelheo, eu envelheo.
       No sei por que estou lembrando tudo isto, agora.? A minha vida se desalinhavou,  isso. Preciso encontrar um fio. Minha filha Manoela acaba de voltar para 
casa depois de um ano de casamento com o seu psicanalista. No deu certo, diz, chorando. No deu certo sexualmente.
       ? Cama ? diz Dora, olhando para mim como se a culpa fosse minha. ?  sempre a cama.
       Dora e eu tivemos uma vida sexual intensa, variada e curta. Dez anos e dois filhos. Foi uma espcie de competio. Ela brochou primeiro. Nos dez anos seguintes 
experimentei com tudo. S no tive sexo com hidrantes, mas cheguei perto. Hoje... Hoje, voc no acreditaria.
       Com o sucesso dos livros, alguns jornais brasileiros compraram a coluna de conselhos sexuais que o dr. Brown publicava semanalmente nos Estados Unidos. Meu 
nome aparecia quase com o mesmo destaque do nome do dr. Brown na coluna. A esta poca eu j fazia palestras para clubes de mes e declaraes  imprensa sobre desvios 
da sexualidade e a nova liberdade. Durante sete anos traduzi a coluna do dr. Brown. Acompanhei, fascinado, a sua adaptao aos novos costumes de sua terra.
       A coluna terminou no Brasil no dia em que o dr. Brown respondeu, com rigor cientfico,  consulta de uma dona-de-casa americana preocupada com sua dieta e 
que queria saber quantas calorias tinha o smen de seu marido. Me convidaram para assinar uma coluna igual  do dr. Brown, porm mais, sabe como , brasileira. Foi 
um sucesso. As cartas choviam de todo o Brasil. Nem todas podiam ser respondidas pelo jornal. Mas se viessem acompanhadas de um envelope selado, Alencar Alpio teria 
o mximo prazer em responder consultas confidenciais pelo correio. Comecei a ganhar dinheiro. Os livros do dr. Brown passaram a ter problemas com a Censura. Sex 
and the Liberated You foi proibido, embora eu tivesse substitudo minha primeira idia para o ttulo, Sexo Doido, por Sexo Moderno. O livro seguinte do dr. Brown, 
Sodomy and You nem chegou a ser traduzido. No passaria pela Censura. O editor decidiu que estava na hora de Alencar Alpio lanar o seu primeiro livro como o maior 
discpulo do dr. Brown no Brasil. Eu tinha uma grande idia. Um estudo que planejava h anos. De como o cientificismo com relao ao sexo (em Sodomy and You o dr. 
Brown dedicava captulos especiais  "Lubrificao" e "Dez passos para eliminar a contrao involuntria") era a maneira que o puritanismo americano encontrara de 
enfrentar a sensualidade liberada pelas novas imposies do lazer numa sociedade historicamente dominada pela tica do pragmatismo e de como, a partir do Relatrio 
Kinsey...
       ? timo, timo ? interrompeu o editor. ? Mas no agora. Temos que continuar na mesma linha do dr. Brown. Sem as loucuras dos americanos. O Brasil ainda no 
est preparado para "O bestialismo e voc".
       ? Aceito. Mas com uma condio. Vocs publicam tambm meu romance.
       ? Est bem. Cad o romance?
       No tinha nenhum romance. Cad o tempo? Um sexlogo no pra.
       Dora me acusava. Eu estava desperdiando meu talento. Diante dela, dos amigos e de mim mesmo, eu me defendia. No fundo era tudo sexo. A arte era s uma tentativa 
para mudar de assunto. Toda literatura pica era a exaltao velada do pnis erecto. Depois do heri flico vinha a impotncia e a literatura da impotncia. Toda 
a arte discursiva era sobre as aventuras do nosso personagem preferido, o Ricardo. De p e invencvel, encurvado pela dvida e o autoconhecimento (toda a literatura 
depois do sculo XIX) ou prostrado pelo mundo moderno, com a cabecinha cheia de idias confusas em vez de sangue e mpeto. O sucesso da literatura escapista de super-heris 
e bandidos lbricos era que ela restabelecia o ideal da ereco eterna. Eu tratava, pois, do nico grande assunto do homem, sem as metforas e a dissimulao. O 
drama da ejaculao precoce. A tragdia da contrio vaginal. A comdia do orgasmo simulado. E at as grandes questes filosficas. No se haver vida depois da 
morte mas: ser que se consegue mulher? Dora sabia, desde o princpio, que eu era um reles aproveitador na pele de Alencar Alpio. Conselhos privados para a Insatisfeita 
do Graja s vezes eram acompanhados de visitas particulares quando o marido saa. O mtodo Brown a domiclio, satisfao garantida. Meu escritrio vivia cheio de 
consulentes.
       ? S consigo ter relaes sexuais satisfatrias no banco de trs do carro, doutor, e meu namorado tem um Kharman Ghia.
       ? H uma maneira. Debruce-se sobre as costas daquela poltrona que eu vou demonstrar.
       ? Mas doutor...
       ? Est bem, est bem. Aluguem um Galaxie. Tem gente esperando.
       Mas isso faz tempo. Hoje procuro um fio. No para sair do labirinto mas para compreend-lo.
       Eu enlouqueo, eu enlouqueo. Manuela acaba de entrar aqui para usar o telefone. Ligou para o seu ex-marido e psicanalista. No quer a reconciliao, quer 
marcar uma hora. Para discutir o trauma de sua separao. Tem melhor sorte no seu div do que na sua cama. Nosso outro filho, Arthur, entrou para uma ordem religiosa 
oriental que substitui o sexo pela contemplao da Alcachofra. Na primeira vez que apareceu aqui vestindo um lenol e com a cabea rapada, Dora lhe deu uma esmola 
e ia quase fechando a porta antes de reconhec-lo e cair no choro. Dora escreve contos obscuros sem nenhuma pontuao. Uma vez passou duas horas discutindo comigo 
sobre se devia ou no usar o ponto final. Eu disse que sim, contando que fosse o ltimo daqueles contos que ela escrevesse. Nunca mais discutimos literatura ? a 
ltima coisa que nos unia.
       H dias chegou uma carta de um leitor que se assina "Pedro Paixo". Ele conta que gosta de besuntar sua mulher com gemas de ovos antes de possu-la, num Hino 
 Fertilidade. Publiquei sua carta na coluna e, num impulso, comentei que ele devia passar a mulher tambm em rosca de po antes de possu-la, num Hino  Milanesa. 
Ele escreveu outra carta dizendo que vai me matar.
       Num congresso de psicologia ? o convite veio endereado ao "Dr. Alencar Alpio", eu no podia recusar ? comecei meu discurso lembrando a histria do papagaio 
metido que vivia dando palpite durante as atividades sexuais do seu dono. "Boa, boa", ou "Agora, pelo flanco!", coisas assim. At que um dia uma namorada mais recatada 
exigiu do dono do papagaio que tapasse sua gaiola durante o ato. O dono pediu desculpas ao bicho e tapou a sua gaiola com um pano. Houve um problema com um fecho 
da roupa da moa e durante algum tempo o papagaio, sem enxergar nada, ouviu uma conversa mais ou menos assim: "Puxa... No, assim no, assim arrebenta... Tenta com 
os dentes... Est quase... P, escapou..." E quando ouviu a voz feminina dizer: "Tenta por trs, mas  melhor usar um alicate", o papagaio deu um pulo e sacudiu 
o pano, exclamando: "Isto eu no posso perder!"
       Depois deste comeo, que deixou muita gente na platia mais intrigada do que o papagaio, passei a dissertar sobre o perigo de mitificar o sexo exatamente 
pela tentativa de desmitific-lo. Estvamos tapando o papagaio, este smbolo tropical do sexo como safadeza, e caindo no outro extremo, a seriedade exagerada que 
complica o que devia esclarecer. Me declarei culpado por boa parte daquela tendncia, eu que ? traduzindo o dr. Brown ? fora dos primeiros a introduzir o sexo, por 
assim dizer, nos lares brasileiros, e pedi desculpas ao papagaio.
       Falei contra a Censura e a represso e elogiei as sociedades liberais que deixavam a sexualidade atingir o seu nvel natural, mesmo com o risco de transbordamentos 
para a baixa pornografia, pois s assim ela seria saudvel e construtiva e dispensaria as regras dos sexlogos, como o charlato que vos fala. Ningum se importou 
muito comigo, mas peguei uma psicloga mineira que comeou a ganir de prazer quando, no hotel, ordenei: "De quatro, mulher!"
       Eu devia ser um par de garras serrilhadas, percorrendo o cho de mares silenciosos, em vez de um pnis com um homem na ponta. E o meu romance, provavelmente, 
seria uma bosta.
       H dias escrevi uma longa carta ao dr. Brown.  incrvel, mas nunca nos encontramos. Uma vez era para ele ter vindo ao Brasil para uma srie de conferncias, 
mas no me lembro o que houve. Uma revoluo, parece. Na minha carta, eu perguntava se ele tambm tinha tido outros planos na juventude, e acabara como eu aprisionado 
pelo sucesso errado, o pior tipo de fracasso. Comentei a revoluo sexual que nos engolfara como lderes contrafeitos ? ele na matriz, eu na imitao ? e perguntei 
se a sua vida particular tambm era uma negao de tudo que ele era pago para pregar. Lembrei minha reao divertida  ingenuidade do seu primeiro livro e como ele 
acabara proibido aqui. (Por sinal, como ia o seu ltimo lanamento, Faa Amor com Suas Plantas Caseiras?) Ele que respondesse se quisesse. Aquilo era apenas um desabafo. 
Com o Ricardo em recesso, eu me entregava aos prazeres da autocompaixo. Mas caprichei no ingls e nas citaes literrias, principalmente de Eliot, embora desconfiasse 
que o bom doutor, pelo seu estilo, no tivesse nenhum gosto pela leitura. Ainda mais de Eliot, um catlico da velha igreja cuja retrica de pecado e contrio ofenderia 
a sua convico protestante de que a palavra era um caminho para a salvao ? no caso, o orgasmo simultneo ? e no para a imolao. Terminei com um paralelo entre 
o meu estado de esprito e o trecho sobre Phlebas, o Fencio, em Terra rida: "Uma corrente submarina limpou os seus ossos aos suspiros. Subindo e descendo ele passou 
pelos estgios da sua idade e juventude e desapareceu no redemoinho". E assinei "do seu (que diabo) discpulo, Alencar Alpio".
       Hoje ? junto com cartas de Me Assustada, Vnus de Paquet, Cato Inseguro, Amante Criativo, Esposa Fiel ("Meu marido me veste de tirolesa, sem as calas, 
e me ataca no quintal todos os sbados, a vizinhana j reclamou e...") ? veio uma carta da editora do dr. Brown:
       "O dr. Brown morreu h anos. Todos os seus livros desde Sex and the Divorced You foram escritos por uma equipe, que tambm faz as colunas semanais para mais 
de duzentos jornais em todo o mundo. Temos certeza que o dr. apreciaria a sua gentil carta, etc.". Muito bem. Todo aquele tempo, em vez dos rigores da mtrica anglo-saxnica, 
eu estivera traduzindo a fico de uma fico. O dr. Brown, como Alencar Alpio, no existia. S que Alencar Alpio ainda respira. E responde cartas de Curiosa de 
So Paulo, Capital ("Afinal, qual a real importncia do tamanho do membro masculino num relacionamento sexual satisfatrio?"); Indecisa, Londrina ("Sinto uma espcie 
de fisgada no umbigo, acompanhada de suor frio, isto  o orgasmo, eu devo procurar um mdico?"); Preocupado, Nova Iguau ("Tenho uma ereo por semana, mas esta 
semana ela no veio...").
       No trabalho mais no escritrio, onde durante anos vivi o sonho brasileiro da safadeza ilimitada, e no horrio comercial. Fico em casa. No vou mais a vernissages 
e noites de autgrafo com Dora para dar consultas extemporneas a suas amigas.
       ? Pensa que eu no vi? Voc marcando um encontro com a Eunice...
       ? Ora, Dorinha. Ela est tendo problemas com o seu orgasmo e eu disse que precisvamos estudar isso a fundo Voc sempre pensa o pior!
       Hoje ? voc no vai acreditar ? s uma coisa sensibiliza o meu tecido erctil. Me tranco no banheiro com um exemplar do primeiro livro do dr. Brown, traduzido 
por mim. Ele usa 117 ? eu os contei no banheiro ? eufemismos para os rgos genitais femininos. Todos me excitam. Tenho a volpia do eufemismo. O seu captulo sobre 
o beijo ? nunca, nunca com a boca aberta, a higiene e a moral guardam o templo do corpo ? me faz babar. Demora, mas vale a pena . No me importo em ficar cego.
       Vou ter que interromper estas reminiscncias. Dora acaba de me avisar que um homenzinho estranho, com cara de brabo, est na porta  procura de Alencar Alpio.
       ? Ele diz que se chama Pedro Paixo e que voc o est esperando.
       ? Diga que Alencar Alpio no existe e...
       Mas Dora j se retirou para chamar Pedro Paixo. Certo, vou atend-lo. Pequei contra a seriedade e devo pagar. Dora acaba de introduzir o homenzinho estranho 
no gabinete e retirar-se. Ele tem uma mo no bolso. Sim, sim, uma arma. O redemoinho. Se sair desta, preciso falar com Arthur sobre a alcachofra. A idia comea 
a me atrair.
       
       
       
       
       
    Uma surpresa para Daphne
       
       
       Daphne mal podia acreditar nos seus ouvidos. Ou no seu ouvido esquerdo, pois era neste que chegava a voz de Peter Vest-Pocket, atravs do fone.
       ? Daphne, voc est a? Sou eu, Peter.
       Quando finalmente conseguiu se refazer da surpresa, a pequena e vivaz Daphne ? era assim que a legenda da sua foto como debutante no Tattler a descrevera, 
anos atrs ? esforou-se para controlar a voz.
       ? Voc quer dizer o sujo, tratante, traidor, nojento, desprovido de qualquer decncia ou carter, estpido e desprezvel Peter Vest-Pocket?
       ? Esse mesmo.  bom saber que voc ainda me ama.
       ? Seu, seu...
       ? Tente porco.
       ? Porco!
       ? Foi por isso que eu deixei voc, Daphne. Voc sempre faz o que eu mando. Era como viver com um perdigueiro. Agora acalme-se.
       ? Porco imundo!
       ? Est bem. Agora acalme-se. Pergunte por que  que eu estou telefonando para voc depois de dois anos.
       ? No me interessa. E foram dois anos, duas semanas e trs dias.
       ? Eu preciso de voc, Daphne.
       ? Peter...
       ? Preciso mesmo. Eu sei que fui um calhorda, mas no sou orgulhoso. Peo perdo.
       ? Oh! Peter. No brinque comigo...
       ? Daphne, voc se lembra daquela semana em Taormina?
       ? Se me lembro.
       ? Do jasmineiro no ptio do hotel? Das azeitonas com vinho branco  tardinha no caf da praa?
       ? Peter, eu estou comeando a chorar.
       ? E daquela vez em que fomos nadar nus, ao luar, e veio um guarda muito srio pedir nossos documentos, e depois os trs comeamos a rir e o guarda acabou 
tirando a roupa tambm?
       ? No. Isso eu no me lembro.
       ? Bom. Deve ter sido em outra ocasio. E a penso em Rapallo, Daphne.
       ? A penso! O velho do acordeo que s tocava Torna a Sorriento e Tea for Two.
       ? E a festa de aniversrio que ns entramos por engano e eu acabei fazendo a minha imitao do Maurice Chevalier com laringite.
       ? Ah, Peter...
       ? Lembra o pimento recheado da signora Lumbago, na penso?
       ? Posso sentir o gosto agora.
       ? Qual era mesmo o ingrediente secreto que ela usava, e que s nos revelou depois que ns ameaamos contar para o seu marido do caso dela com o garom?
       ? Era... Deixa ver. Era manjerico.
       ? Voc tem certeza?
       ? Tenho. Ah, Peter, Peter... No consigo ficar braba com voc.
       ? timo, Daphne. precisamos nos ver. Tchau.
       ? Tchau?! TCHAU?! Voc disse que precisava de mim, Peter!
       ? Precisava. Eu estou fazendo aquele pimento recheado para uma amiga e no me lembrava do ingrediente secreto. Voc me ajudou muito, Daphne, e...
       ? Seu animal! Seu jumento insensvel! Seu filho...
       ? Daphne, eu j pedi desculpas. Voc quer que eu me humilhe?
       
       
       
       
       
    Sem volta
       
       
       O exlio e a volta. Trata-se sempre disto. O evento e a sua memria. O fato e a sua contemplao, o sentido e o imaginrio, e o que podia ter sido. O exlio 
 a tua histria, a volta  a tua histria mais ntima. Literatura. O teu quarto de criana, a mancha da tua cabea na tbua da cama, antes do exlio. Os restos 
das barcaas na praia, 30 anos depois da guerra. Sopra um vento frio. A cmara faz uma panormica lenta, na trilha, os rudos da batalha antiga. Voc podia jurar 
que o quarto era maior.
       A histria retomada pela arte. Um truque com palavras: Nabokov escrevendo em ingls sobre um passado na Rssia em que todos falavam francs. O evento destilado 
em camadas de imagens, como um bourbon pelo carvo. (E a traduo em portugus estraga tudo.) A volta  sempre pela imaginao, nada  retomado inteiro. O que te 
acontece num minuto no minuto seguinte  histria, no outro  inveno, no quarto  Nabokov. E a no tem mais volta.
       A Bblia no conta, mas Ado e Eva voltaram ao Paraso depois do banimento. E levaram as crianas. Percorrem tudo em silncio. As crianas reclamando cansadas, 
aquilo no significava nada para elas. Aqui foi onde Ele tirou a minha costela para fazer a mame, s de pensar me d uma dor no lado. Faz tanto tempo. Olha ali 
a rvore com as nossas iniciais e dois estmagos trespassados por uma flecha. Como  que ns amos saber que era o corao? Ns no sabamos de nada. E l adiante 
o matinho onde ns, pela primeira vez...
       ? Ado! As crianas...
       Mas as crianas se entretm com a carcaa de uma cobra. Escurece. O guia vem avisar que est na hora de fechar e oferece uma ma pintada, um souvenir do 
lugar. Ado e Eva se entreolham, tristemente. No, obrigado, ns j comemos.
       Lenine volta  Estao Finlndia. A estao est deserta. Seus olhos fazem uma panormica lenta sobre os trilhos. Sobe a msica. Ele imagina a cena, a multido, 
o triunfo, eu podia jurar que era maior. Claudiomiro na rea depois que todos foram embora. Sopra um vento frio. Quem no viu este filme? Como foi mesmo o gol? O 
vdeo-teipe  o gol feito literatura , mas s Claudiomiro tem na memria a alternativa do gol, o que podia ter sido. O fato  o mesmo para todos, mas cada um volta 
ao fato  sua maneira. E quando vai pegar j pega a terceira verso do fato, revisada pelo autor. O criminoso nunca volta ao local exato do crime. E tambm no era 
bem isto que eu queria dizer.
       T.S. Eliot: e depois disso, o nosso exlio. O resto do poema no importa, a frase  tudo. A postura intelectual do nosso tempo, a lamentao depois da queda. 
O paraso perdido, o quintal da casa coberto com mato, a nossa infncia pastoral na Rssia antes de Lenine com primas que mostravam tudo. S quem viveu antes da 
Revoluo conhece as delcias da vida. A poca de Ouro de qualquer coisa  sempre a que veio antes da nossa, gozado. E no h como escapar dessa morbidez. A alternativa 
 a dos novos inocentes: tudo legal, magro. Uma cultura sem memria, sem queda, de quem j nasceu no exlio e est gostando. Para os novos inocentes no h nenhuma 
antipatia entre o fato e a verso, tudo legal. Voc e eu bem que gostaramos de ser desse marido, mas no temos mais volta. A memria  uma danao, mas ela  to 
nossa quanto a barriga e os velhos hbitos. Uma nova conscincia? No, obrigado, ns j comemos.
       
       
       
       
       
    A volta de Ed Mort
       
       
       Mort. Ed Mort. Detetive Particular. Era o que estava escrito na plaqueta, na porta deste cubculo que alugo numa galeria de Copacabana. Entre uma escola de 
cabeleireiros e uma loja de carimbos. Mas roubaram a porta. A galeria  assim. A polcia s entra aqui com proteo policial. Barra. Uma vez devoraram um fiscal 
da Sunab. Mas desconfio que quem roubou minha porta foi o proprietrio. Ele ameaou retomar o imvel por falta de pagamento. Talvez esteja retomando aos poucos. 
S porque estamos em maio e ainda no paguei janeiro. De 70, 71, por a. Mandei ele cobrar aluguel das baratas. Ele fez que no ouviu, mas as baratas ficaram indignadas. 
Outro dia tirei os sapatos para trocar as meias de p ? assim elas gastam parelho ? e quando vi um dos sapatos estava saindo pela porta. Uma falange de baratas. 
Tranquei meus objetos de valor ? as duas Bic e o telefone, que  mudo mas  meu, na gaveta da mesa. Roubaram a mesa. Mort. Ed Mort. Estava na plaqueta. Quem a encontrar, 
pode ficar com a porta.
       Eu estava sentado na minha cadeira giratria, que gira s para a direita, no meio do cubculo vazio, olhando pelo vo da porta. Do outro lado tem um japons 
que fabrica e vende souvenirs da Amaznia. O japons tem uma filha. Ela ri para mim. Viro um pouco a cadeira para ver, rapidamente, se a minha braguilha no est 
aberta. No est. Para encarar de novo a japonesinha tenho que dar uma volta completa na cadeira. Ela ri mais ainda. Uso costeletas. Sorrio para o lado. Mexendo 
apenas as sobrancelhas, posso mudar de expresso em segundos. Cnico mas terno. Cruel e desiludido de tudo, mas espere at ouvir as minhas razes, nenm. Carente 
de afeto e compreenso. Irnico, algo frvolo, mas capaz de grande profundidade. Era difcil ver se a japonesinha estava registrando tudo. Mas no tirava os olhos 
de mim. Sbito, uma sombra ocupou o vo da porta. Uma sombra linda.
       Ela estava de luto. Coitada. Pensei em pular da cadeira, beij-la brutalmente, apert-la contra mim, esfregar suas costas com ardor e dizer: "Meus psames". 
Mas resisti.
       ? Mort? Ed Mort?
       ? O que resta dele ? respondi, arranjando as sobrancelhas na posio Cnico, Sim, Mas Voc Pode me Recuperar.
       ? Vi seu anncio nos classificados do JB.
       ? O velho um por um. Nunca falha.
       Ofereci a cadeira para ela sentar. Ela sentou. Cruzou as pernas. As meias pretas fizeram suish-suish. Voltaire, o rato albino que mora atrs da cesta de 
papel e no gosta de movimento, espiou para ver o que estava acontecendo. Ela disse que precisava dos meus servios. Tive que escolher rapidamente o que fazer com 
as sobrancelhas. Nada de muito sugestivo. Optei por Curiosidade com Uma Certa Dose de Malcia. Meus servios?
       ? Para encontrar meu marido.
       Ento era isso. Outro marido desaparecido. Pedi para ela descrev-lo.
       ? Quarenta e oito anos. Vinte mais do que eu. Alto. Moreno. Grisalho. Aspecto saudvel.
       ? Sim.
       ? Outra coisa.
       ? O qu?
       ? Ele est morto.
       Desta vez Voltaire apareceu para ver que silncio era aquele. Esqueci as sobrancelhas. Meu problema agora era encontrar o que dizer.
       ? Morto?
       ? H um ano.
       ? E voc quer encontr-lo?
       ? Isso.
       ? Encontrar o corpo?
       ? No. O esprito.
       Me contou que mantinha contato com o marido morto atravs de uma mdium do Catete. Madame Aldiva: Quiromancia, Mediunidade e Escola de Datilografia. Duzentos 
cruzeiros por sesso, fora o frisante e os pastis. Mas o esprito do marido tinha desaparecido. Madame Aldiva no conseguia mais contat-lo. S havia uma explicao. 
Ele estava sendo aliciado por outra mdium. A soldo, possivelmente, de outra mulher. Minha misso: resgat-lo. Mort. Ed Mort.
       Madame Aldiva: Quiromancia, Mediunidade e Escola de Datilografia ocupava um andar em cima de um aougue. Os padres bordados do seu quimono pelo que pude 
ver ? contavam toda a epopia de Rondon na selva, em cores vivas. O marido era um baixinho. Muito nervoso, porque Madame Aldida, que enxergava o futuro, sempre o 
apresentava como "Meu primeiro marido". Discutimos o caso da minha cliente. Era estranho. Muito estranho. Durante um ano o esprito comparecera sempre que chamado. 
E de repente no vinha mais.
       ? Tente cham-lo.
       ? So 200 adiantado, mesmo que ele no venha. 
       Fiz um cheque. Madame Aldiva apertou o cheque contra a testa. Falou:
       ? Vejo-me entrando num banco. Vou direto ao caixa. O caixa olha o cheque. Comea a rir...
       ? Est bem, est bem.
       Paguei em dinheiro. Uma semana de pedaos de pizza. Aproveitaria a fome para aproximar-me da Verdade Final atravs da contemplao. O diabo era que, quando 
a fome me dava vises, eram vises de grandes pizzas. Ou a Verdade Final era uma mozzarela ou eu no dava para o ascetismo. Mort. Ed Mort.
       Madame Aldiva no conseguiu contatar o esprito aliciado. Tive uma idia. Pedi para ela chamar o esprito de Vanncio, vulgo Fuinha, um alcagete que morrera 
semanas antes me devendo um favor. Em poucos minutos, Madame Aldiva estava falando com a voz inconfundvel do Fuinha.Um pouco contrariado: O que ?
       ? Fuinha. Sou eu. Mort. Ed Mort.
       ? Ele quer ir embora ? disse Madame Aldiva, com sua voz normal.
       ? Segura ele!
       Disse para Fuinha que precisava de um servicinho. Para saldar a sua dvida. Prometi que retiraria a minha praga, a de que ele seria reencarnado no carnaval 
? oba! ? mas como bumbo. Fuinha topou. No dia seguinte nos encontramos outra vez, atravs de Madame Aldiva. (Mais duzentos. Vendi minha cadeira giratria.) Fuinha 
deu o servio. Investigara. O esprito do distinto estava baixando em Cascadura. Uma segunda famlia.
       Minha cliente ouviu meu relatrio em silncio. Estvamos os dois em p no meu cubculo. A japonesinha nos cuidando do outro lado da galeria. De repente ela 
comeou a tirar a roupa preta, aos berros. Juntou gente na porta. Chamaram um guarda. O guarda veio empurrado, e entrou na sala com as mos para o alto. Quando viu 
que no era assalto, se animou. Prendeu a viva nua. At hoje ningum me pagou. As baratas cuidam o meu p, esperando outra chance para atacar. A japonesinha no 
me olha, depois da cena no cubculo. Voltaire foi embora. Roubaram a cesta de papel. Mort. Ed Mort. Com uma fome...
       
       
       
       
       
    Voc vai ver
       
       
       Voc tomar um txi no centro da cidade. Dezessete menores maltrapilhos brigaro para segurarem a porta para voc. Voc atirar uma moeda de 200 cruzeiros 
longe, todos correro para peg-la e voc poder subir no txi sem o risco de perder a carteira, pelo intercomunicador dir ao chofer, isolado na sua cabina  prova 
de bala, acetileno e britadeira, o endereo da sua casa. No  longe, mas com o jeito que est o trnsito ser uma viagem de trs horas. No caminho voc passar 
pelo local do Grande Engarrafamento de 1980 e abanar, melancolicamente, para o seu ltimo carro, abandonado entre milhares de outros, embaixo de um viaduto.
       (Foi assim: um engarrafamento que comeou na tardinha de uma sexta-feira e nunca mais terminou. Os proprietrios ? alguns aos prantos tiveram que abandonar 
seus carros. A prefeitura construiu um viaduto de emergncia por cima. Depois de duas ou trs semanas, marginais comearam a usar os veculos para morar. Primeiro 
os nibus. Depois os Galaxies, Dodges e Mavericks. No fim, os Volkswagens. A Vila Sucata (ou Jardim Lataria) se tornou famosa como um foco de criminalidade, sujeira 
e buzinadas extemporneas no centro da cidade. Seus habitantes, durante muito tempo, sobreviveram com a venda de pneus, baterias e outras peas das suas moradias. 
Depois dedicaram-se  indstria da sublocao, alugando espao nos veculos. "Alugamos banco no nibus para famlia pequena". "Vagas para rapaz em Passat quatro 
portas, entrada independente".)
       Voc mora na Vila de Segurana "Forte Apache". (Quando as imobilirias lanaram as vilas de segurana ? reas residenciais cercadas por muros eletrificados, 
com torres de metralhadoras de 50 em 50 metros ? usaram nomes pitorescos para promov-las: "lamo", "Forte Apache", "Alcazar de Toledo", "Tria", etc. Foi um sucesso.) 
No porto principal, voc precisa identificar-se, e o chofer do txi deve deixar sua carteira de identidade com o guarda, para receb-la quando sair. O pesado porto 
de ao  prova de canho abre para deixar passar o txi e fecha em seguida. Na frente da sua casa voc introduz o dinheiro da corrida ? 1.800 cruzeiros ? num compartimento 
especial que s abre do lado do chofer quando fecha do lado do passageiro. A porta da sua casa tem uma fechadura de cofre, e mesmo depois de voc girar a fechadura 
de acordo com a combinao, precisa esperar que sua mulher identifique voc pelo olho-mgico e depois leve 20 minutos abrindo todas as trancas por dentro. Por precauo, 
voc leva a mo ao revlver enquanto espera.
       ? Como foi o seu dia? ? perguntar ela.
       ? timo. Fui assaltado s duas vezes no centro No encontraram o dinheiro no salto falso do sapato nem me levaram o revlver.
       ? Que bom.
       As Vilas de Segurana tm suas prprias escolas, supermercados e centros comerciais. Depois das dez horas ningum pode sair na rua, sob pena de ser estraalhado 
por bandos de ces policiais especialmente treinados para s pouparem mdicos e mecnicos de TV, e que patrulham as vilas at o nascer-do sol.
       Voc janta com a famlia. O seu filho pergunta, pela milsima vez, como  o mundo no lado de fora dos muros. E quer saber de novo que estranho som  aquele 
que ele ouve todas as noites, como se fossem gemidos humanos, de milhares de pessoas, do outro lado do muro. E por que aquelas rajadas de metralhadora, todas as 
noites?
       Voc e a sua mulher se entreolham, e voc explica.
       ?  a televiso do vizinho, meu filho.
       
       
       
       
       
    Festa de aniversrio
       
       
       Os ingredientes so: uma poro de caos, duas de confuso e uma pobre me exausta ? tudo misturado com um co latindo e bales estourando.
       Uma boa festa de aniversrio deve ter no mnimo vinte crianas, sendo uma de colo, que chora o tempo todo, uma maior do que as outras, chamada Eurico, que 
bate nas menores e acabar mordida pelo cachorro, para a secreta satisfao de todos; e uma de rosto angelical, olhar lmpido e vestido impecvel, que conseguir 
sentar em cima do bolo de chocolate. Esta deve se chamar Cndida.
       Boa festa de aniversrio  aquela em que, depois que todos foram embora, a me do aniversariante examina os destroos com o mesmo olhar que Napoleo lanou 
sobre os campos de Waterloo depois da batalha, e fica indecisa entre chorar, fugir de casa ou rolar pelo tapete dando gargalhadas histricas. Desiste de rolar pelo 
tapete porque o tapete est coberto de restos de comida.
        indispensvel que no fim da festa sobre uma criana que ningum sabe como foi parar embaixo do sof.
       ? Como  seu nome, meu bem?
       ? Cndida.
        ela de novo. E as grandes camadas de chocolate no seu traseiro no esto ajudando o tapete.
       A me do aniversariante decide chorar.
       Melhor ainda so os pais que vem buscar as crianas e ficam para tomar uma cervejinha. A noite j vai alta, os filhos dormem nos seus colos com a boca aberta, 
os bales coloridos presos ao dedo de cada criana fazem um bal em cmara lenta no meio da sala, e os pais no vo embora. A me do aniversariante no sente mais 
as pernas. Apalpa um joelho, para ver se a perna ainda est l. Fantstico: est. E ento ouve, incrdula, a voz do marido:
       ? Carminha, traz mais uma cerveja para o Dr. Ariel... Ser que o inconsciente no sabe que ela teve que correr o dia inteiro? Que encheu os bales com seus 
prprios pulmes? Que fez a torta de chocolate com a sua prpria receita? Que por pouco no estrangulou 20 crianas com as suas prprias mos? Boa festa de aniversrio 
 a que acaba com a me do aniversariante querendo estrangular o prprio marido.
       E o padrinho do aniversariante, que vem de longe especialmente para o aniversrio e  ignorado pelo afilhado?
       ? Ora, Rodolfo,  que ele no via voc h dois anos. Criana esquece depressa.
       ? Ele jamais gostou de mim.
       ? Gosta sim, Rodolfo.  Beto, vem c pedir a bno a Seu padrinho.
       ? A bno, padrinho.
       ? Agora d um beijo nele. Pronto. E agora agradea o presente que ele trouxe para voc.
       ? Obrigado pelo "Forte Apache".
       ? Viu s, Rodolfo? Voc no pode se queixar do seu afilhado. Ele adora voc.
       O padrinho ficar com a cara trgica at o fim da festa.
       Recusar salgadinhos e cervejas e suspirar muito. Antes de dormir, o afilhado vir correndo lhe dar um beijo espontneo e um longo abrao. Na hora de ir 
embora, Rodolfo confidenciar aos compadres:
       ? Ele me adora.
       Uma boa festa de aniversrio deve ter guaran morno e show de mgica. O mgico deve ser arranjado  ltima hora e no pode ser muito bom. A me do aniversariante 
deve contratar o mgico na certeza de que, depois de cantarem o "Parabns a voc", comerem a torta de chocolate e beberem o guaran morno, as crianas no tero 
mais o que fazer, perdero o interesse e a festa ser um fracasso.  preciso um show para entret-las.
       ? Crianas, ateno! Uma surpresa para vocs! ? Dona Carminha no consegue atrair a ateno das crianas. H um grupo brincando de pegar, outro brincando 
de cabra-cega, um terceiro improvisando um renhido futebol com bales, e a Cndida que ? com sua cara impassvel de querubim ? prepara-se para amarrar uma jarra 
carssima no rabo do cachorro.
       ? Crianas! Por favor, silncio! Parem imediatamente tudo o que esto fazendo. Para vocs no ficarem sem o que fazer, vamos apresentar um show de mgicas!
       Deve ser uma luta para reunir as crianas em torno do mgico. Antes que o espetculo acabe, as crianas estaro participando ativamente de cada truque, espiando 
para dentro da manga, descobrindo todos os compartimentos secretos e desmoralizando por completo o mgico, que no dia seguinte mudar de profisso. Em seguida, a 
me do aniversariante tentar organizar um calmo e instrutivo jogo de charadas, mas ningum lhe dar bola. As crianas agora brincam de Zorro, e o Eurico, montado 
no cachorro, faz um rpido "Z" com um jato de Coca-Cola na parede da sala.
       Uma boa festa de aniversrio deve terminar depois da meia-noite, quando o ltimo pai sai arrastando a ltima criana, e a criana, o ltimo balo, que estoura 
na sada. A me do aniversariante deve olhar para o marido, suspirar e declarar que est morta. Que ir direto para a cama e s pensar em arrumar a casa amanh. 
Ou daqui a uma semana, sei l. E s ento se lembrar:
       ? Meu Deus, a Cndida! Temos que levar a Cndida em casa.
       Uma boa festa de aniversrio deve terminar com uma criana sonolenta sendo entregue em casa com a recomendao: ? Olhe que ela est que  s chocolate.
       
       
       
       
       
    O dcimo primeiro mandamento
       
       
       Ele se chamava, por alguma razo, Maxwell, mas era paulista. "De trezentos anos", gostava de dizer. "Chegamos um pouco atrasados". E assim, na mesma frase 
nos informava que sua famlia era importante mas que ele no ligava muito para essas coisas. Quem ele no conquistasse com o nome conquistaria com o descaso pelo 
nome. Tinha charme, o sacana. E estava em Porto Alegre para nos conquistar de um jeito ou de outro.
       Comeou por Cludio, que tinha fatal fascinao pelo suprfluo.
       Cludio e Vnia conheciam tudo sobre o dinheiro e a sua ascendncia. Para eles o dinheiro dava na rvore genealgica das pessoas, desde que tivessem o nome 
certo. O bisav de Cludio comeara a fortuna da famlia roubando cavalos na fronteira, mas no imenso retrato oval, que deixara ? junto com uma estncia maior do 
que alguns pases ? para inspirar seus descendentes, seu rosto era o de um patriarca hereditrio, o dcimo sexto ou dcimo stimo baro de qualquer coisa. Um tronco 
de retido moral. A riqueza, para Cludio e Vnia, era uma justa deferncia do mundo  sua beleza e  sua juventude. (Vnia na frente do espelho, se auto gozando 
mas no muito: "Que rica cara...") Nenhum dos dois entendia o poder. Quer dizer, no entendiam a primeira coisa sobre o dinheiro. O dinheiro conquistado corrompe 
mas sensibiliza. O dinheiro legado inocenta terrivelmente. Cludio e Vnia. Carneiros sanguinrios em roupagem de lobo. Mas lobo na ltima moda.
       ? Vocs precisam ver o escritrio dele! ? foi a primeira coisa que Cludio nos disse de Maxwell, quando chegou de So Paulo. ? O tapete  desta grossura.
       Os dois tinham passado a noite conversando e pulando de bar em bar. Tudo na noite paulista lhes sorria e o maitre do La Cocagne mais que tudo. De madrugada 
? isto Cludio me contou depois, longe de Vnia ? tinham ido para o apartamento de Maxwell com duas gatas fenomenais. Coisa fina.
       ? E que papo! ? disse Cludio. ? O cara tem cultura. Quando ele vier aqui, vou te apresentar.
       Eu era uma espcie de intelectual em residncia da famlia. Ajudava Vnia com o Proust, e Cludio a receber estrangeiros na fbrica e nos seus embaraados 
encontros com a cultura. Eles me pagavam com a amizade e algumas confidncias. Uma vez me levaram junto  Europa para pedir o prato certo nos restaurantes certos 
e tnhamos descido correndo, os trs, o Champs Elyses de madrugada. Por nada, s por correr nos Champs Elyses de madrugada. E  claro que eu estava apaixonado 
pela Vnia. Diga-se a meu favor que eu no ficava arranhando a porta quando eles me botavam para fora do apartamento,  noite. Eu ia gostar muito da cultura do Maxwell, 
Cludio tinha certeza. Para no falar no seu Mercedes.
       Dois ou trs grupos de So Paulo tinham feito ofertas pela participao acionria no grupo de empresas que Cludio dirigia, mas nenhum, aparentemente, tinha 
o mesmo prestgio com os maitres, ou tapete to grosso. Cludio vira-o em ao e o confundira com apenas uma forma superior de esbanjamento brasileiro. Irresistvel.
       Cludio, receberia Maxwell em Porto Alegre como um irmo na inocncia. O levaria a passear de lancha no rio ao pr-do-sol e abriria os braos para a cidade 
crepuscular, o quintal da sua herdade. Maxwell talvez ficasse olhando para o seu pescoo. O predador adivinhando a jugular. Vnia olharia para o perfil de Maxwell. 
Eu olharia para o rosto de Vnia. Assim uma ordem econmica d  luz, lentamente, sem agonia, a sua natural ordem seguinte. Os carneiros nem saberiam o que lhes 
acontecera. E s nossas costas o sol se poria, simbolicamente, sobre o Guaba.
       Fui o primeiro a chegar no apartamento para o jantar com que Cludio apresentaria Maxwell  famlia e aos amigos. Vnia estava linda. Cludio estava irritado. 
Naquele dia os jornais tinham noticiado que mais um importante grupo empresarial gacho seria absorvido por So Paulo. Cludio redigira uma declarao para mandar 
aos jornais no dia seguinte. Os paulistas no estavam absorvendo nada, seriam acionistas minoritrios, o grupo continuava gacho. Queria que eu o ajudasse na redao. 
Mas Vnia me enlaou pelo brao e disse que s estava me esperando para preparar aqueles drinques com vodca que eu inventara, como era mesmo a receita? Minha retrica 
no ia afetar a descapitalizao do Estado. Decidi, como sempre, pela vodca.
       ? Voc j o conheceu? ? perguntei a Vnia, enquanto preparvamos a bebida. Aquele perfume ela tinha comprado em Paris. Na nossa viagem.
       ? Quem? Max? J. No aeroporto. Nos entendemos muito bem. Sabe que ele tem o Mercedes dos meus sonhos?
       No era uma premonio. Nem cimes. Eu apenas tinha a impresso de que alguma coisa estava chegando ao fim. Vnia estava de branco como uma oferenda. Seus 
seios estavam quase a mostra no decote do vestido. De alguma maneira, aparecer ou no aparecer o bico dos seios era como a diferena entre 49 ou 51% das aes.
       Aps o jantar (Vnia insistia em servir " americana", embora eu dissesse, tentando equilibrar prato, talheres e copo, que nessas horas sempre me faltava 
um joelho). Maxwell veio me cumprimentar pelos drinques. Era mais velho do que Cludio, estava perto dos 40. Disse que ou muito se enganara ou detectara o sabor 
de tequila na mistura.
       ? Acertou. Vodca, tequila, limo e um sopro de granadino. Eu sempre digo que foi isso, e no uma picareta, que matou o Trtski.
       Maxwell riu. Forado, mas ningum jamais rira da minha frase antes. Maxwell apontou com o copo para o sof onde, num arranjo casual, Cludio, seu irmo Incio 
e o pai dos dois, conversando com as cabeas muito juntas, representavam 80 por cento das aes do grupo e um tableau inconsciente: "Os efeitos da endogamia e das 
empresas familiares na economia gacha". Incio tinha o olhar vago. A no ser pelo seu Opala especial, no qual j se arrebentara vrias vezes, no tinha muito sobre 
o que conversar.
       ? Cludio me falou que voc conhece a histria da famlia melhor do que ningum ? disse Maxwell. ? O Nacinho, eu sei,  um dbil mental. Mas, e o velho?
       ? Foi quem construiu tudo. Era, dentro das suas limitaes, um homem de viso. Claro que no partiu do nada. Tinha dinheiro do pai, do gado, das fazendas. 
Casou com uma prima, rica tambm. Mas veio para a cidade. Optou pela indstria. Construiu. Cresceu. Chegou a ter uma das quatro ou cinco maiores fortunas do Estado. 
Depois teve um enfarte e passou tudo para as mos do Cludio.
       ? E o Cludio est botando tudo fora.
       Olhei para Maxwell. Ele continuava a olhar para o trio no sof. No tinha feito uma pergunta. Fiquei quieto. Vnia passou por ns e atirou um beijo. Peguei 
o beijo no ar. Maxwell me olhou com expresso divertida. Fingi que esfarelava o beijo na mo fechada e depois o despejava dentro do copo. Um ingrediente improvisado. 
Ele riu outra vez. Talvez me levasse junto quando raptasse Vnia no seu Mercedes. Para fazer os drinques e as frases.
       ? E voc o que pensa de tudo isto? ? perguntou Max. (Depois do quinto Trtski eu j o chamava de Max.) ? Voc sabe o que est acontecendo mas no faz nada.
       ? Eu no posso fazer nada. Max. Eu sou parte do que est acontecendo. Voc  quem vai fazer tudo. So Paulo vai nos salvar de ns mesmos.
       ? No. Voc no faz parte disto. Voc est de fora mas no pode se afastar. A decadncia fascina voc.  ou no ? Quem foi que disse que no apogeu as pessoas 
fazem Histria e na decadncia, Literatura?
       Cludio e Vnia no so a decadncia de nada. So inocentes inteis. Isto aqui nunca teve apogeu para ter decadncia to atraente assim.
       ? Um sopro de decadncia ? sugeriu Max, sorrindo. Fingi que hesitava um pouco antes de aceitar este novo ingrediente e tambm adicion-lo, com um gesto, ao 
drinque que tinha na mo.
       ? V l. Um sopro de decadncia.
       Depois disto, Max disse que no inconsciente agropastoril do Rio Grande do Sul a industrializao era um dos disfarces do demnio conspurcador de Santo Agostinho, 
o que tinha as suas cidades no Norte, eu disse que aquilo era uma simplificao grosseira, ele disse que a reao contra a alienao da economia gacha vinha de 
um senso machista de posse, eu disse que aquilo era mgoa de paulista provinciano que no enxergava o Brasil alm das suas prprias chamins. Depois, falamos do 
Corntians e do Internacional, concordamos que ainda se come muito bem em So Paulo e que, decididamente, no d mais para ouvir o Miles Davis. E, quando vimos, 
estvamos os dois olhando para o decote da Vnia, que se debruava sobre o sof para beijar a cabea do sogro.
       ? Sabe qual  o dcimo primeiro mandamento? ? Max perguntou.
       ? No citar Santo Agostinho com a barriga cheia?
       ? No.  no desejar a mulher do prximo a menos que voc tenha uma fonte inesgotvel de renda.
       Propus um brinde s sbias palavras, embora meu copo estivesse vazio. A mim ele conquistou pela cumplicidade.
       As negociaes se estenderam por vrias semanas, durante as quais Maxwell veio seguido a Porto Alegre e Cludio foi outras tantas vezes a So Paulo. Um dia 
Cludio anunciou:
       ? As coisas no vo indo bem.
       E, quase no mesmo flego, sem sentir que fizera a conexo:
       ? Da prxima vez voc vai a So Paulo comigo, Vaninha.
       Os demnios do Norte queriam o controle completo ou nada. E Maxwell, embora a deciso final no fosse apenas dele, era quem fazia as maiores exigncias.
       ? O que  isso? ? perguntei a Cludio, tomado de sbita indignao. E, estranho: no estava bbado.
       ? O que  o qu?
       ? Por que Vnia tem de ir junto?
       ? E por que no? Ela pode aproveitar para fazer compras. O Max pe um carro a nossa disposio. Voc no vive me pedindo para ir junto, Vaninha?
       Vnia estava olhando para mim quando respondeu: . Mas desta vez eu no quero ir.
       ? O prprio Max pediu que eu levasse voc. Quer mostrar o Mercedes.
       ? E da?
       ? No podemos contrariar o Max. Vocs no sabem, mas se este negcio no sair ns ficamos mal, muito mal. Ele quer tudo ou desiste. E se ele desistir, ningum 
mais vai querer.
       O predador tinha a sua presa pelo pescoo.
       ? Voc vai, Vaninha.
       ? No vou.
       A terceira conquista ele no fizera. A que parecia a mais fcil. Curiosamente, recusando-se a se sacrificar pelo Rio Grande, Vnia nos reabilitava. Eu beijaria 
os seus ps naquela hora, s que depois no saberia como parar.
       So Paulo ficou com o controle acionrio. J que no pde ter Vnia, Maxwell exigiu o resto. Com a sua parte do dinheiro, Nacinho comprou um Maverick envenenado 
e o arrasou contra um muro no primeiro dia. Cludio aceitou um cargo de direo em So Paulo, seduzido pela perspectiva de tapetes profundos e gatas de primeira 
classe. Vnia ficou em Porto Alegre. No comigo, infelizmente. Est fazendo Comunicao na PUC e trocou os vestidos decotados pelo asctico brim. Meus sonhos de 
voltar a Paris sozinho com ela ? depsito prvio por conta dela, naturalmente ? se desfizeram. Mas tive o meu instante de glria.
       Na ltima vez que vi Maxwell ele perguntou por Vnia. E quis saber se eu respeitara o dcimo primeiro mandamento. Menti. Respondi que no. Ponto para os intelectuais 
decadentes.
       ? Foi por sua causa que ela no quis ir a So Paulo daquela vez?
       ? Voc no acreditaria que foi mais uma demonstrao da fibra moral da mulher gacha? Que algumas partes da nossa alma no esto  venda?
       ? Acreditaria. Mas prefiro um explicao menos pica. Como  que voc conseguiu o que eu no consegui?
       ? Voc no conhece o poder dos meus drinques ? disse eu sorrindo.
       
       
       
       
       
    Dona Joaninha e dona Cenira
       
       
       Dona Joaninha tinha lido um livro na sua juventude que a impressionara muito. Sobre as atrocidades do Imprio Otomano. Ficara com uma pssima impresso dos 
turcos. Sua indignao durara anos, de sorte que sempre que algum falava nos perigos que ameaavam a humanidade ? a radiao atmica, o comunismo internacional, 
o caos econmico ? dona Joaninha interferia:
       ? Eu tenho medo  dos turcos...
       E se algum perguntasse por que, dona Joaninha desfiava com entusiasmo as barbaridades que sabia sobre os turcos ? termo genrico que, para ela, inclua todas 
as raas do Norte da frica ao Mar Cspio. Incluindo os turcos. E tinha at um certo orgulho dos seus viles favoritos. Se, no seu grupo do ch semanal, uma amiga 
falasse que tinha pesadelos com as hordas chinesas e com o que elas fariam com o Ocidente quando o pegassem, dona Joaninha fazia cara de desdm.
       ? Os chineses so pinto perto dos turcos.
       E repetia as passagens mais sangrentas do seu repertrio. As amigas ficavam arrepiadas.
       No adiantava o marido de dona Joaninha tentar argumentar e dizer, por exemplo, que nos sculos de dominao rabe na pennsula ibrica nunca tinha acontecido 
nada to terrvel quanto a Inquisio, e que as cruzadas crists contra os turcos  que tinham sido invases brbaras. Dona Joaninha no ouvia. As vezes passava 
os olhos pelos jornais, lia sobre guerras de fronteiras, terremotos, seqestros e suspirava, resignada.
       ? Pelo menos os turcos esto quietos. Os filhos se impacientavam:
       ? Tanta coisa para a mame se preocupar no mundo e ela se preocupa com os turcos!
       E ela:
       ?  porque vocs no sabem do que eles so capazes.
       Era como se, em todo o mundo cristo, s dona Joaninha mantivesse um olho vigilante no seu verdadeiro inimigo, atenta para qualquer sinal de perigo. O terrorismo 
dos palestinos era pouco diante do grande terror de dona Joaninha: o isl sublevado, despencando sobre os povos com a crueldade nos olhos e sua terrvel espada curva, 
igualzinho como no livro.
       Quando o ayatollah Khomeini apareceu na televiso pela primeira vez, dona Joaninha ficou tesa na cadeira. Comentou:
       ? Ai, ai, ai.
       Naquela noite no dormiu. Depois, passou o dia preocupada, lendo e relendo o noticirio do Ir. O marido e os filhos, j acostumados a fazerem pouco da geopoltica 
de dona Joaninha, riram muito e disseram que o regime do X estava seguro, que os americanos jamais permitiriam a sua queda, que o ayatollah era apenas mais um fantico 
religioso, anacrnico e sem futuro. Dona Joaninha foi sucinta:
       ? Vocs vo ver.
       Hoje, dona Joaninha  respeitada, e no apenas no seu grupo de ch. Quando o ayatollah ameaa cortar as mos dos seus inimigos ou dar um tiro na boca de algum, 
todos se viram para dona Joaninha, que mantm um silncio cheio de eu-no-disse. Estranhamente, dona Joaninha tem falado menos nos turcos desde que o Ir virou uma 
repblica islmica e o exemplo do ayatollah incendiou todos os muulmanos. Mas contam que ela encheu a despensa da casa, prevendo o stio. E dorme com uma faca sob 
o travesseiro.
       No livro, as mulheres preferiam o punhal a serem escravas do sulto.
       J a dona Cenira s tinha uma preocupao na vida, que era a sade do marido. E este, que toda a vida gostara de brincar com dona Cenira, depois que se aposentou 
inventou uma brincadeira nova. Fingia que morria. S para assustar a mulher.
       Dona Cenira voltava para a sala onde deixara o marido lendo o jornal e l estava ele com a cabea atirada para trs, os olhos e a boca abertos, as mos soltas 
de cada lado da cadeira, o jornal espalhado dramaticamente pelo cho. Dona Cenira dava um grito, corria para o marido, e este se dobrava de tanto rir. Coitada da 
dona Cenira.
       Uma vez, num almoo de domingo, toda a famlia reunida, o marido de dona Cenira caiu de repente com a cara no prato de macarro. Houve correria. Metade da 
famlia acudiu a suposta vtima de sncope e a outra, dona Cenira, que quase desmaiava. Ento o marido de dona Cenira levantou a cabea, disse que o macarro estava 
frio e pediu outro prato. E apontou para a mulher, s gargalhadas. Todos acharam que era uma brincadeira de mau gosto mas no puderam deixar de sorrir. Esses dois...
       Os netos gostaram da idia e se tornaram cmplices. Davam palpites:
       ? Vov, finge que cai no banheiro. Faz bastante barulho. A vov vem correndo e encontra o senhor estirado no cho.
       ? Pelado!
       Todas as manhs dona Cenira sacudia o marido, que acordava mas no abria os olhos. S quando dona Cenira botava o ouvido contra o seu peito para ouvir o corao 
 que ele saltava e exclamava: "Bom dia!" Dona Cenira, entre aliviada e assustada, gritava:
       ? Voc ainda me mata!
       Um dia dona Cenira sacudiu, sacudiu, mas o marido no acordou mesmo. Veio o mdico, veio toda a famlia. Prepararam o velho para o velrio, fizeram arranjos 
para o enterro. E, a todas essas, dona Cenira desconfiada, com o olho vivo, decidida que dessa vez no seria enganada.
       At a hora de fecharem o caixo, dona Cenira ficou alerta, do lado do corpo. Se fosse fingimento, ele ia ver!
       Coitada da dona Cenira.
       
       
       
       
       
    Caso de divrcio (III)
       
       
       Ele  um ex-seminarista. Srio, metdico e higinico. Do tipo que dorme sem amassar o pijama. Dela, todos dizem:  uma santa. Nunca tiveram filhos, e explicam 
que  por um problema de bacia estreita. Dele, no dela, mas ningum jamais pediu maiores explicaes. Ele  tcnico contbil, est muito bem de vida. Ela se dedica 
a obras benemerentes e a atividades paroquiais. Os dois fizeram cursilho. Certa vez, ele escreveu uma carta ao jornal sobre uma vaga questo de dogma da Igreja e 
assinou Leigo Alerta. Ela usa o cabelo puxado para trs e amarrado num coque que  uma declarao de princpios. At que um dia...
       Um dia, por acaso, ligam o rdio no meio de uma transmisso de futebol. E ela ouve um nome: Dulcdio Wanderley Boschila. No ouve o resto da frase, no sabe 
quem , mas fixa-se no nome como se o agarrasse com os dentes. Dulcdio Wanderley Boschila. Estremece. Sente uma estranha sensao no peito, uma aflio. Como um 
sumidouro. Dulcdio Wanderley Boschila. O que  que est me acontecendo, Deus? Levanta e vai na cozinha tomar gua. Quando volta, o marido acabou de desligar o rdio 
e est tirando a gravata, sinal certo de que se prepara para dormir. Ser que ele notou alguma coisa?
       Dulcdio Wanderley Boschila. No consegue dormir. Nunca mais ser a mesma. Que fascnio tem aquele nome para mudar uma vida? E o mais estranho  que s de 
madrugada, o marido roncando como um urso, ela se d conta que existe um homem que corresponde ao nome. At ento o nome fora uma assombrao sem corpo na sua viglia, 
uma coisa etrea, uma abstrao sonora. Poucas horas antes da missa das seis, a aflio ganha um corpo. Mas que corpo ter Dulcdio Wanderley Boschila?
       De volta da missa ela pega o jornal e vira para a pgina de esportes. Procura uma fotografia. Ser este aqui? Deixa ver. Zezinho. No  este. Tadeu. Cacau. 
Sente-se ridcula. O massagista Banha. Preciso me controlar. E sbito, num canto da pgina, a notcia: o rbitro Dulcdio Wanderley Boschila, que apitou o jogo de 
ontem, ficar na cidade at amanh pela manh, quando embarcar para So Paulo. A empregada aparece na sala para pedir instrues para o almoo e descobre a patroa, 
com o jornal amassado contra o peito, o olhar perdido, e uma expresso na boca que a empregada ? se soubesse soletrar a palavra ? chamaria de pura lascvia. No mesmo 
dia, temendo nem ela sabe bem o qu, a empregada pede dispensa, depois de 17 anos com a famlia.
       Na manh do dia seguinte, em vez da missa, a mulher vai para o aeroporto. De cabelo solto. O marido fica dormindo. Atenta a todas as chamadas para embarque, 
a mulher procura em vo por algum com cara de Dulcdio Wanderley Boschila. Almoa um bauru com guaran no balco do aeroporto e fica at  noite. S quando descobre 
que no h mais vos para So Paulo naquele dia  que vai para casa.
       ? Onde  que voc esteve? ? quis saber o marido, preocupado.
       ? No interessa.
       Ela tranca-se no quarto, e nos quatro dias seguintes s sai uma vez, para telefonar a um jornal. Pede o endereo de Dulcdio Wanderley Boschila em So Paulo. 
Ningum sabe. Ela deve escrever para a Federao Paulista de Futebol, o Departamento de rbitros, por a. Na noite do quarto dia ela declara para o marido.
       ? Quero ir para So Paulo.
       ? Est bem. Iremos.
       ? Voc, no. Eu. Quero viver. Quero viver!
       O marido salta com os dois ps no seu peito, como um Watusi, e a manda cambaleando para dentro do quarto. Fecha a porta. At hoje, s a deixa sair para ir 
ao banheiro. Ela tem assustado vrias pessoas da vizinhana com chamados furtivos, da janela, no meio da noite, e misteriosos bilhetes "para o Dulcdio, em So Paulo. 
Rpido, rpido!"
       
       
       
       
       
    Ed Mort vai fundo
       
       
       Mort. Ed Mort. Detetive particular.  o que est escrito na plaqueta da minha porta. Idade? Digamos que o meu time de boto era o Vasco de 50. Costeletas. 
Bigode fino. A boca do Thuran Bey. Estranho, ele ainda no ter dado falta. Duro. Mas j disseram que meus olhos se enternecem quando falo na minha terra. A Penha. 
Divido meu escritrio com dezessete baratas e um rato albino. O rato s vezes desaparece mas sempre volta. Por isso eu o chamo Voltaire. Temos um acordo. Quando 
as coisas vo bem, eu o sustento. Ultimamente, ele estava me trazendo queijo. Mort. Ed Mort. Est na plaqueta.
       As baratas tinham me encurralado num canto e preparavam o ataque final quando a porta se abriu. Dizer que era uma mulher  fazer uma injustia. Era o que 
vem depois da mulher. Fantstica. As baratas se dispersaram. Ela perguntou se estava interrompendo alguma coisa.
       ? S o meu ritmo cardaco ? respondi.
       Ela sorriu. Compreendi, finalmente, o que Deus queria dizer quando criou os dentes. Convidei-a a sentar. Meus mveis eram escandinavos. Caixotes de bacalhau 
noruegus. Ela vestia calas to apertadas que daria para ver as imperfeies de sua pele, se houvesse alguma. Comeou a falar:
       ? Eu...
       ? Meu assunto favorito ? interrompi.
       Outro sorriso. Graas a Deus. Pensei que o primeiro fosse o nico exemplar. Resisti a tentao de pedir para examinar o tecido das suas calas na chance de 
que fosse mesmo a pele. Disse para ela continuar.
       ? Eu preciso encontrar meu marido.
       Outro marido perdido! Permaneci impassvel, mas a boca do Thuran Bey reagiu como quando Maria Montez lhe dizia que estava prometida ao Califa. Mort. Ed Mort. 
Est na plaqueta.
       ? Quando foi que ele desapareceu?
       ? Ontem. Saiu de casa e no voltou at agora. Eu no quis ir  polcia...
       ? Para evitar um escndalo. Certo. Ele parecia diferente? Alguma coisa fora do normal?
       ? No. Saiu com o seu uatanami para o bu-do, normalmente.
       Suspirei. Olhei para as suas pernas. Primeiro uma, depois a outra. De cima a baixo. Levou tempo. Suspirei outra vez. Finalmente, perguntei:
       ? Ele saiu com o que para onde?
       ? Com o uatanami para o bu-do. O uatanami  um quimono cerimonial. O bu-do  um tipo de luta oriental que meu marido pratica. Ele  atadura branca.
       ? Voc quer dizer, faixa preta.
       ? No. Atadura branca. S depois de sofrer sete luxaes  que o aluno  considerado mestre bu-do e pode usar a atadura branca, sim bolada suprema sabedoria.
       Pensei em perguntar se ela fazia muita questo de recuperar esse marido. Pulei do meu caixote, enlacei-a nos braos e convidei-a a fazer amor oriental comigo. 
Algo envolvendo caligrafia, arroz e as sete safadezas de Lao-tze. Isto em pensamento, claro. Perguntei:
       ? Ele vai sempre ao bu-do?
       ? Trs vezes por semana.  uma academia.
       ? E ontem seria uma ocasio especial?
       ? Pensando bem, ele disse que ontem seria a noite do San-tchim-tcha. Mas no falou nada em no voltar para casa.
       ? O que  a noite do San-tchim-tcha? Todos assoam o nariz, cerimonialmente?
       ? No sei.
       Olhei outra vez para suas pernas. Ela perguntou no que eu estava pensando.
       ? No bu-do ? menti.
       ? Voc acha que o desaparecimento dele tem alguma coisa a ver com o bu-do?
       ?  o que vamos ver. Onde fica essa academia? 
       Ela deu o endereo. Disse para ela no se preocupar.
       Ela sorriu. Trs! Mais um sorriso e eu lhe prometeria tudo o que tinha. A minha Bic. Meus lbuns do Agnaldo Timteo. O guardanapo autografado pelo Jorginho 
Guinle. Tudo! Mort. Ed Mort. Est na plaqueta.
       Na Academia no tinha ningum, s um velhinho oriental que era metade de algum. Perguntei onde estavam todos. O velhinho fingiu que no sabia portugus. 
Mas estava lendo a Amiga. Dei um lance no escuro. Eu sou assim. Esperto. (Mort. Ed Mort.) Disse:
       ? Sei tudo sobre o San-tchim-tcha.
       O velhinho arregalou os olhos e saiu apressadamente da sala. Voltou com duas verses humanas do monte Sujiyama. Me agarraram e me arrastaram para uma sala 
nos fundos da Academia. Encarei um chins de cabea raspada com um drago bordado no peito. E o peito estava nu. Ele perguntou quem eu era. Dei meu nome e CPF e 
disse que no adiantaria, no arrancariam mais nada de mim. A no ser que pedissem com modos. Ele perguntou o que eu sabia sobre o San-tchim-tcha. Respondi que sabia 
tudo e a polcia tambm. Todos se entreolharam. O de cabea raspada disse:
       ? Agora no adianta mais nada. A noite do San-tchim-tcha foi ontem. A esta altura, o poder j  nosso!
       ? O poder?
       ? Arra! Ento voc no sabia nada. Lesma.
       ? Lesma no!
       ? Lesma. San-tchim-tcha quer dizer "de cabea para baixo". Ontem ns viramos este pas de cabea para baixo. Subvertemos tudo. Tomamos o poder!
       ? "Ns" quem?
       ? Todos os cursos de artes marciais do Oriente no pas, coligados. O plano de infiltrao foi arquitetado h anos. Comeamos aos poucos. Primeiro o jiu-jitsu. 
Depois o karat. O kempo. O bu-do. Capturaramos as mentes e os corpos de milhares de adeptos. E ento, na hora certa, a um sinal do nosso lder no exterior, tomaramos 
o poder. Neste momento, nossos homens dominam Braslia.
       ? Quer dizer que todos os cursos de artes marciais do Brasil pertenciam a um nico homem?
       ? Sim, Tsetsuo Roupinho, o pulha de Macau. Filho de um portugus e de uma chinesa. Nosso veneravel lder. Nosso...
       O telefone tocou. O chins atendeu. Ouviu por alguns minutos. Seu rosto passou de horroroso a pavoroso. Em vez de desligar, destroou o telefone com os dentes.
       ? O plano fracassou ? disse mastigando.
       ? O que houve?
       ? Malditos! Era para todos agirem em silncio. Mas na hora de atacar no se contiveram e comearam a gritar. Voc sabe. "Kanam! Ratak". Resultado: aconteceu 
o pior.
       ? O qu?
       ? Acordaram o Golbery. Ele dominou a situao. Nossas foras voltaram para a clandestinidade sem serem identificadas. Ningum sabe o que aconteceu. A no 
ser claro... Voc...
       No pergunte como eu sa vivo de l. S posso dizer que meu bigode ficou. Avisei minha cliente que o marido voltaria para casa em breve e que em hiptese 
alguma ela devia comentar o San-tchim-tcha. Ela perguntou quanto era. Respondi: "Um sorriso". Ela pagou. Os jornais no deram nada do golpe fracassado. As academias 
de artes marciais continuam funcionando normalmente. S eu sei o que elas pretendem, e os planos de Tsetsuo Roupinho, o Pulha de Macau. Mort. Ed Mort. Est na plaqueta. 
E a plaqueta, esta manh, estava de cabea para baixo!
       
       
       
       
       
    Marido enganado
       
       
       ? Um usque, como sempre, Dr. Otvio?
       ? Nunca tomo usque. Vodca pura. Com gelo.
       ? Sim, senhor, Dr. Otvio.
       ? Outra coisa.
       ? Sim?
       ? Meu nome no  Otvio.
       Era Eduardo, e estava inquieto. Alguma coisa ia lhe acontecer. Trinta e sete anos, sade perfeita, ganhando dinheiro como nunca... Alguma estavam lhe preparando. 
O mundo em crise e ele ali, feliz. Devia haver algum engano. Pediu pipocas ao barman, que lhe trouxe amendoim.
       Ia ter um enfarte fulminante. Perder o emprego. Ou uma perna. Qualquer coisa. Estava tudo bem demais. At torcia pelo Internacional! Era o nico homem da 
sua idade que ele conhecia com os quatro avs ainda vivos.
       Era desesperador ser to feliz. Algum sentou a seu lado no bar.
       ? Voc no me conhece...
       O homem era mais moo do que ele. Bonito. Parecia um ator de televiso, quem era mesmo? Casado com a Glria Menezes. Francisco Cuoco, isso. O barman veio 
lhe perguntar "o de sempre, doutor?" e ele ficou confuso. Era obviamente a primeira vez que entrava naquele bar. Pediu usque nacional e virou-se outra vez para 
Eduardo, que o olhava como quem espera uma m notcia e est preparado.
       ? Meu nome  Carlos. Sua mulher deve ter lhe falado de mim.
       Ento era isso! Eduardo sentiu, quase com alvio, que sua tragdia chegava. Finalmente. A mulher o enganava. Era melhor do que um enfarte.
       ? No, no falou.
       ? Ela prometeu que lhe contaria tudo.
       ? No contou nada.
       O outro tomou um gole do Bloody Mary que o barman, por engano, colocara na sua frente. Estava embaraado.
       ? Deste jeito a coisa fica mais difcil.
       Eduardo estava calmo. Descobria agora que era exatamente aquilo que esperava. A traio. Dez anos de casamento sem brigas, 10 anos de farsa. No podia acreditar 
em mais nada. Era perfeito. Sem olhar para o outro, sugeriu:
       ? Quem sabe voc mesmo me conta tudo, Mrio?
       ? Carlos. No h muito para contar. Nos conhecemos...
       ? Onde?
       Eduardo estava tomado por uma espcie de volpia do sofrimento. Queria saber tudo. Com detalhes. Queria ser arrasado. Pediu outra vodca para acompanhar o 
prprio massacre..
       ?  Na praia.
       Eduardo gemeu baixinho. Perfeito. Ela namorava na praia. Enquanto ele trabalhava. E ele nunca a enganara. Nem uma nica vez, em 10 anos. Tinha havido aquela 
recepcionista ruiva,  verdade, mas aquilo fora em So Paulo. Tomou um gole da bebida sem sentir que o barmam lhe servia usque, por engano, e nacional. Carlos continuou.
       ? Aconteceu. No pudemos evitar.
       ? H quanto tempo vem acontecendo?
       ? Trs meses.
       ? Mteis?
       ? s vezes. E no meu apartamento, quando mame no est.
       Eduardo tentou visualizar sua mulher num motel com aquele gal de praia. A cama redonda. A luz colorida. O incenso. O banho de leos. No, banho de leos 
era exagero. As tardes de prazer e loucura. Sua mulher, sua companheira, me dos seus dois filhos, refletida no espelho do teto, nua e em vrios tons de vermelho. 
Era demais. Ele no agentava! Pediu mais detalhes.
       ? Foi ela quem quis?
       ? No. Fui eu. E ela resistiu muito.
       ? No tente me consolar ? advertiu Eduardo.
       ? Decidimos que voc precisava saber. Ela lhe respeita demais. Quer esclarecer tudo. Aceita o desquite, a separao dos filhos...
       Sim, sim, pensou Eduardo. Os filhos. Teria que ser pai e me para eles. Ser corajoso para apoi-los. Sua vida seria um inferno dali por diante. Era para isso 
que ele estava sendo poupado todo este tempo. Nada de pequenas tragdias. A traio total, a desmoralizao total. Pediu outra vodca e bebeu o martini que o barman 
lhe trouxe de um gole s. Passaria a beber, cuidando para esconder seu estado das crianas. Para o bem das crianas, no se suicidaria logo. E sempre protegeria 
o nome da mulher na frente das crianas, sempre. Os filhos no sofreriam pelos pecados da me.
       ? A Cludia ia lhe falar sobre ns, ontem. Acho que no teve coragem. Ela me contou que voc vinha a este bar todos os dias a esta hora e eu...
       ? Espera a. Que Cludia?
       ? Como, "que Cludia?" A sua mulher.
       Eduardo olhou para Mrcio. Ou Dcio, ou como o diabo se chamasse o outro. Estava ficando bbado. Devia haver algum engano. Sua mulher se chamava Snia. E, 
pensando bem, nunca ia  praia.
       ? O que foi? ? perguntou Carlos, desconfiado.
       ? Nada, nada ? respondeu Eduardo. E para o barman: ? Me d outro destes.
       ? Escuta, Raul. Acho que voc deve reagir. Afinal, no  o fim do mundo. Desquites acontecem a toda hora. Ficar a bebendo e se lamentando no vai adiantar 
nada. V para casa, converse com Cludia...
       ? Vem c. Eu no preciso dos seus conselhos, entendeu? Voc j fez a sua parte, destruindo o meu lar, destruindo a minha vida. Agora  comigo. E  melhor 
ir embora antes que eu lhe atire este... este...  Juvenal, que porcaria  esta que voc me serviu?
       ? Gim tnica, Dr. Mateus. E meu nome  Juvncio.
       ? Lhe atiro este gim tnica na cara! V embora!
       O outro saiu. O barman trouxe o telefone para Eduardo.
       ? Telefonema para o senhor, Dr. Mateus. Eduardo arrancou o fone de mo do barmam. No se chamava Mateus, mas que diabo.
       ? Al?
       ?  o Mateus?
       ? . Sei l. O que  que voc quer?
       ? Voc est com uma voz diferente...
       Eduardo no se conteve. Quase soluando, os olhos cheios de lgrimas, respondeu:
       ?  que eu acabo de receber uma notcia terrvel!
       
       
       
       
       
    A conta
       
       
       ? Mame! Meu prato preferido! A senhora no tem preo...
       A me est de p ao lado da mesa. Os seus olhos brilham como um metal precioso vendo o filho diante do seu prato preferencial. Lasanha verde-dlar.
       ? Est bom, meu filho?
       O filho mastiga a primeira garfada. Fecha os olhos. Bom? Est uma riqueza.
       ? Mame, se a senhora abrisse um restaurante, faria fortuna!
       O pai d risada enquanto a me volta  cozinha para buscar a salada. O pai no come. S olha para o filho. Filho nico. O seu tesouro.
       ? E ento, velho? ? pergunta o filho de boca cheia.
       ? Vou indo com a minha penso e a renda de alguns investimentos. Voc sabe. Mas voc tem aparecido por aqui menos do que nota de 500...
       ? Eu sei, eu sei. No tenho mais tempo para nada. Negcios, viagens... Tempo  dinheiro. s vezes no apareo nem em casa. Passo dias sem encontrar os filhos. 
S nos encontramos na hora da mesada. A mesada  sagrada. Fora isso, eles quase no me vem...
       ? Pelo menos voc est ficando rico.
       ? Ah, isto estou. Cada vez mais. Graas a Deus. E a vocs.
       A me volta da cozinha com uma travessa de salada verde-debnture.
       ? As crianas esto bem? ? pergunta.
       ? Tm tudo o que o dinheiro pode comprar. timas.
       ? E voc e sua mulher?
       ? Que que tem?
       ? Esto se acertando?
       ? Temos conta conjunta. Ela acabou de ganhar seu prprio carto de crdito. Eu a vejo pouco, mas parece felicssima.
       ? Olha a salada, meu filho.
       ? Voc, ento, est milionrio ? diz o pai, acariciando o filho com os olhos como se fosse uma BB ao portador achada na rua.
       ? Acho que posso dizer que sim ? responde o filho, garfeando uma alface. ? No foi fcil. Dei duro. Mas vocs me ensinaram o valor do dinheiro, me ensinaram 
a lutar por ele, a ser esperto, a sacrificar tudo por ele. Devo tudo o que sou a vocs.
       ? Ora, meu filho...
       ? No. Isto eu preciso dizer. Nada no mundo pode pagar o que vocs fizeram por mim.
       Os pais se entreolham. O filho est visivelmente emocionado. A ltima vez que sentiu um n na garganta assim foi quando a Belgo-Mineira deu-lhe bonificao. 
Tem que parar de comer.
       ? Come, meu filho.
       Ele enxuga uma lgrima. No consegue mais comer.
       ? Tem sido duro, viu? Tenho sido desumano, s vezes. Perdi amigos. Os empregados, eu sei, me detestam. Mas eu venci na vida. Vocs podem se orgulhar de mim. 
Eu fiquei rico!
       ? Se voc j terminou a comida, eu vou buscar o manjar-branco.
       ? Manjar-branco! Voc tem um corao de ouro, mame. Ouro macio. Tudo o que eu fiz valeu a pena, para ter um momento como este. Mame, papai, como  que 
eu posso pagar tudo o que vocs fizeram por mim?
       O velho limpa a garganta. Pede para a mulher, que se dirige  cozinha com os pratos do almoo:
       ? Minha velha, quando vier da cozinha, traga aquela notinha.
       Pai e filho ficam sorrindo um para o outro, esperando a sobremesa. Quando a me vem, entrega um pedao de papel de calculadora ao velho. Este pe os culos 
de leitura e examina o papel.
       ? , acho que est tudo aqui.
       ? O qu? ? pergunta o filho, curioso.
       ? Sua me e eu fizemos um clculo de tudo o que gastamos com voc desde que voc nasceu. Est tudo aqui.
       O filho pisca. No entendeu bem.
       ? Como ?
       ? Claro que tivemos que aplicar correo monetria em alguns itens. O preo das fraldas, por exemplo, aumentou quase mil por cento desde que voc era nenm.
       ? Uma lindeza ? lembra a me, servindo o manjar-branco.
       O filho est de boca aberta. Olha para o pai. Depois, para a me. No acredita no que est ouvindo.  como se de repente lhe dissessem que a General Motors 
faliu e os cubanos invadiram a Wall Street. Empurra o prato de manjar-branco. Levanta-se. Caminha pela sala de jantar, sacudindo s moedas no bolso. Olha pela janela. 
Vai at a sala. Atira-se numa poltrona.
       ? Meu filho, o manjar-branco...
       Ele no ouve. Durante um longo tempo, fica olhando fixo para a parede onde est emoldurado o primeiro cruzeiro que ele ganhou, lavando o carro do pai. Depois 
levanta-se, como que tomando uma resoluo, e volta para a mesa. Pega o papel da mo do pai. Senta-se, srio, e examina o papel.
       ? O que  isto aqui? ? pergunta, apontando uma cifra para o pai.
       ? Material escolar.
       ? E isto?
       ? Roupa lavada.
       ? Que ndices vocs usaram para fazer a correo monetria?
       ? Da Fundao Getlio Vargas e do IBGE.
       ? Meu filho, o manjar...
       Ele levanta a mo para interromper a me. Est tratando de negcios.
       ? Isto?
       ? Comida.
       ? Como  que eu sei que os nmeros so estes mesmos?
       ? Voc pode fazer os seus prprios clculos. Aceitamos arbitrao independente, claro. Custos de auditoria a cargo do litigante derrotado.
       ? Isto aqui?
       ? Diversos: Cinema, balas, operao das amgdalas...
       ? E esta quantia acrescentada a tinta, no fim da lista?
       ?  o almoo de hoje. Lasanha verde, salada, cerveja e manjar-branco.
       ? Eu no toquei no manjar-branco!
       ? E a gorjeta da sua me?
       
       
       
       
       
    Dia da confraternizao
       
       
       DE: Gerncia Executiva
       PARA: Todos os funcionrios.
       Como  do conhecimento de todos, esta Empresa realiza anualmente o seu Dia da Confraternizao, uma oportunidade para colegas de trabalho e seus familiares 
se reunirem num ambiente de congraamento, descontrao e sadio companheirismo. Como em outras ocasies, o Dia da Confraternizao deste ano teve lugar na Sede Campestre 
da Fundao que leva o nome do Fundador da nossa Empresa e saudoso pai do nosso atual Diretor-Presidente. Infelizmente, nem todos sabem compreender o esprito do 
evento, como atestam os desagradveis acontecimentos, a que passamos a nos referir.
       J no primeiro jogo do torneio de futebol interdepartamental que se realizou pela manh, Recursos Humanos X Manuteno e Oficinas, surgiram os primeiros incidentes. 
O doutor Almeida, assessor do nosso Departamento Jurdico prontificou-se gentilmente a atuar como juiz. As chacotas dirigidas aos cales largos do doutor Almeida 
eram compreensveis, pois estavam dentro do esprito descontrado da ocasio. Nada justifica no entanto, a covarde agresso de que foi vtima o doutor Almeida depois 
de apitar o pnalti que deu a vitria ao Departamento de Recursos Humanos. No jogo Contabilidade x Almoxarifado, realizado a seguir, era evidente a inteno dos 
jogadores do Almoxarifado de atingir, deslealmente o nosso estimado caixa Gurgel, que quando se recusa a descontar vales para o pessoal o faz por orientao da Direo 
e no ? como pareciam pensar seus adversrios ? por deciso prpria. Gurgel ficou desacordado at a hora da distribuio dos brindes, outros lamentveis episdios 
que comentaremos adiante. O torneio de futebol atingiu o cmulo da violncia no jogo decisivo, Secretaria x Embalagem e Expedio realizado s trs da tarde, quando 
todos j reclamavam o incio do churrasco e uma tentativa de invaso  churrasqueira por parte de um grupo de mes  procura de comida para seus filhos fora repelida 
 fora por elementos do nosso Departamento de Segurana Interna. Houve uma batalha campal entre jogadores e assistentes e o nosso companheiro Druck, do Faturamento, 
que atuava como juiz, est hospitalizado at hoje. Recebendo, alis, completa assistncia da Empresa, embora no fosse um acidente de trabalho, mas tudo bem.
       Como faz todos os anos, nosso Diretor-Presidente preparou-se para dizer algumas palavras antes de comear o churrasco, agradecendo a colaborao de todos 
para o crescimento da Empresa durante o ano. Foi recebido com gritos de "A, linginha", "Fala, seboso" e "Nada de discurso, queremos comida". Tambm recebeu um 
po na testa. Com seu conhecido esprito democrtico e tolerante, nosso Diretor-Presidente decidiu suprimir o discurso. O churrasco transcorreu sem maiores incidentes, 
fora o prato de salada de batata despejado,  traio, sobre a cabea do doutor Almeida, reflexo ainda da sua atuao como juiz pela manh, mas o consumo de chope 
foi alto e  certa altura ouviram-se pedidos descabidos para que a dignssima esposa do nosso Diretor Industrial, dona Morena, fizesse um strip-tease em cima da 
mesa, sendo nosso Diretor obrigado a segurar sua mulher  fora. Chegou a hora de sortear os nmeros que receberiam brindes, o que foi feito pela dignssima esposa 
do nosso Diretor de Planejamento, Dona Santa, recebida com gritos de "Pelancuda! Pelancuda!" O primeiro nmero sorteado por Dona Santa foi o do seu sobrinho Roni, 
do Departamento de Arte, o que despertou revolta geral e gritos de "Marmelada!" Todos avanaram sobre os brindes e na confuso diversos membros do nosso Conselho 
Fiscal foram pisoteados e dona Morena sofreu alguns apertes.
       A Direo est disposta a esquecer os acontecimentos do Dia da Confraternizao se os funcionrios se comprometerem a esquec-los tambm. Elementos da Secretaria 
e de Embalagem e Expedio tm-se envolvido em seguidas brigas durante o horrio de trabalho a respeito do jogo inacabado e o doutor Almeida, cuja presena no nosso 
Departamento Jurdico  indispensvel, est impedido de aparecer na Empresa sob o risco de apanhar. Isto est afetando a nossa produo. Se as coisas continuarem 
assim a Direo ser obrigada a tomar medidas drsticas, podendo, inclusive, cancelar o Dia da Confraternizao do prximo ano!
       
       
       
       
    A visita do anjo
       
       
       Pea em um ato.
       Cenrio: a sala de estar da manso da famlia A. Cabral, no Rio de Janeiro.
       poca: o futuro
       Personagens:
       PEDRO A. CABRAL ? Patriarca da famlia. Descendente direto de Paulo A. Cabral, magnata do caf, durante muitos anos o principal sonegador do fisco brasileiro 
(Prmio Sonegao do Clube Comercial em 1921, 22 e 23). Neto de Bonifcio A. Cabral, magnata da borracha, conhecido pelo seu trabalho de pacificao dos ndios nas 
suas terras com armas de repetio e dinamite. Bisneto de Olegrio (Tristemente Famoso) A. Cabral, magnata do acar e fundador da fortuna da famlia, predecessor 
da abolio da escravatura no Brasil com a sua poltica de abolio sistemtica de escravos, Ministro do Imprio, autor da clebre frase: "O estrangeiro que quiser 
espoliar o Brasil das suas riquezas naturais ter que se ver comigo e acertar a comisso!" Pedro A. Cabral, depois da sua trombose, s consegue se comunicar com 
a famlia atravs de um sistema de piscadelas. Uma piscadela significa "Comprem", duas piscadelas significa "Vendam" e trs significam "Segurem o meu charuto".
       MARIA DA ANUNCIAO A. CABRAL ? Mulher de Pedro A. Cabral. Muito religiosa. Vive na igreja, apesar dos insistentes pedidos do padre para que ela volte para 
casa e desocupe a sacristia. Devido a sua formao pequena e quadrada ? casou-se sem saber nada sobre o sexo e atribui o nascimento dos filhos a um tratamento de 
guas que fez em Poos de Caldas.
       PAULO A. CABRAL NETO ? Filho mais velho de Pedro A. Cabral e Maria da Anunciao A. Cabral. Lder das empresas do grupo Cabral. Transferiu as aes do grupo 
para o nome do seu cachorro, Tupi A. Cabral, um dia antes da interveno federal, depois de receber milhes de cruzeiros de subveno do Governo para evitar a falncia 
do grupo. Considerado um empresrio progressista, foi o primeiro a pagar dcimo-quarto salrio aos seus empregados, que mesmo assim persistem em reclamar o pagamento 
dos outros treze.
       LOURDES BURZIGUIM A. CABRAL ? Mulher de Paulo A. Cabral Neto. Muito ativa em obras benemerentes. Uma vez organizou um desfile de Yves Saint-Laurent no Copa 
em benefcio dos pobres. A festa no teve sucesso e os pobres tiveram que pagar o prejuzo. Vai todos os anos a Paris renovar o seu guarda-roupa, apesar da dificuldade 
em transportar o grande e pesado mvel no avio.
       PEDRO A. CABRAL FILHO ? Segundo filho de Pedro A. Cabral e Maria da Anunciao A. Cabral. Preparado desde cedo para ser o poltico da famlia. Chegou a ser 
Secretrio de Estado mas causou um escndalo quando assinou a ata da sua investidura no cargo com um X e ainda babou na ata.  o principal incentivador de uma organizao 
clandestina de extrema direita que ele afirma no ser to radical quanto as organizaes de caa aos comunistas. "S atacamos pessoas de centro-esquerda".
       VIVIANE (VIVI) ASTRAGO A. CABRAL ? Mulher de Pedro A. Cabral Filho. Intelectual, tem a seu cargo as iniciativas culturais da famlia, como a discotheque 
e viagens de estudo a Disneylandia. Leu o O Pequeno Prncipe convencida de que era uma condensao de O Prncipe de Maquiavel.
       MARIA DA PURIFICAO A. CABRAL ? Filha solteira de Pedro A. Cabral e Maria da Anunciao A. Cabral. Contrabandista. To feia que teve que fazer uma cirurgia 
plstica para ficar horrorosa.
       RICARDO (RIQU        INHO) BURZIGUIM A. CABRAL ? Filho de Paulo A. Cabral Neto e Lourdes Burziguim A. Cabral. Playboy. Destruiu o seu primeiro carro-esporte 
contra um poste no dia em que o recebeu mas foi perdoado porque tinha s oito anos. Responsvel por dezessete mortes e oitenta casos de danos corporais em acidentes 
de trnsito, o que lhe vale o apelido carinhoso de Celerado na famlia.
       ROBERTO (BOB) BURZIGUIM A. CABRAL ? Segundo filho de Paulo A. Cabral Neto e Lourdes Burziguim A. Cabral. Economista. Desenvolveu a teoria da Desinflao Criativa 
Decimal, que consiste em diminuir os ndices mensais da inflao no pas mudando a colocao da vrgula antes de divulg-los ao pblico. Autor de panfletos e apedidos 
exigindo das autoridades uma atitude firme em defesa dos valores cristos da ptria e dono de uma rede de motis na Barra.
       GUSTAVO (TAVO) ASTRAGO A. CABRAL Filho nico de Pedro A. Cabral Filho e Viviane (Vivi) Astrago A. Cabral. Importador de cocana. A rua onde mora, no Leblon, 
 conhecida como O Vale do P.
       TUPI A. CABRAL ? O cachorro. 
       JAIME ? O mordomo.
       ANJO DA RETRIBUIO ? Enviado do cu que chega na sala para anunciar o Dia do Acerto de Contas.
       
       Ato nico:
       
       O Mordomo entra na sala onde a famlia est reunida e anuncia:
       MORDOMO ? O Anjo da Retribuio!
       Entra o Anjo.
       ANJO ? Chegou o Dia do Acerto de Contas. O Dia do Castigo. O Dia da Retribuio. O Grande Dedo da Iniqidade apontava para esta casa e o Senhor me enviou 
para punir quem transgrediu as suas leis e feriu seus mandamentos. Quem foi?
       TODOS (apontando para o mordomo) ? Foi o mordomo!
       O Anjo da Retribuio sai com o mordomo pelo brao. Todos ficam em silncio por alguns minutos. Esto claramente consternados com o que aconteceu. Finalmente:
       LOURDES ? Quem diria. O Jaime!
       PAULO ?  o que d ter gente de outro nvel dentro de casa.
       Cai o pano.
       
       
       
       
       
    Uma moa direita
       
       
       Hortncia:
       Deixei dinheiro dentro da compoteira para po e frutas. Por favor, deixe para arrumar o quarto de dormir do meu filho por ltimo porque o Eduardo anda muito 
cansado de procurar emprego e hoje vai dormir at tarde. Obrigada.
       Lurdes
       
       Dona Lurdes
       Desculpe, no comprei nada porque no tinha dinheiro dentro da compoteira. Seu Eduardo j estava de p quando eu cheguei e disse que tambm no tinha dinheiro 
a senhora desculpe.
       Hortncia.
       
       Hortncia
       Acho muito estranho o dinheiro ter desaparecido assim. Em todo o caso deixei mais dinheiro hoje, em baixo daquele vaso azul em cima da cristaleira. O Eduardo 
reclamou que no pde dormir com o barulho que voc fez ao chegar, ontem. Por favor tenha mais cuidado. Obrigado.
       Lurdes
       
       Dona Lurdes
       Desculpe outra vez mas no encontrei o dinheiro. Seu Eduardo nem estava em casa quando eu cheguei hoje, e ontem no fui eu que acordei ele me desculpe.
       Hortncia
       
       Hortncia
       No estou em absoluto desconfiando de voc, que apesar de ser domstica,  uma moa direita, de trato e boa aparncia, mas no compreendo, como o dinheiro 
pode estar desaparecendo assim. Desta vez, deixei o dinheiro dentro do forno do fogo. Espero que seja encontrado.
       Lurdes
       
       Dona Lurdes
       Me desculpe, mas quando entrei na cozinha hoje encontrei o seu Eduardo abrindo o forno e pegando o dinheiro. Me disse que no era para contar, mas eu sou 
uma moa direita e mesmo que perca o emprego no passo por ladra desculpe.
       Hortncia
       
       Meu filho:
       Como nunca encontro voc em casa quando chego da repartio tenho que recorrer a bilhetes como este para me comunicar. A Hortncia me contou tudo. O que voc 
fez  inominvel: lendo os recados para a empregada e pegando o dinheiro que eu deixo para as despesas da casa! Felizmente ainda existe gente honesta neste mundo. 
Se voc tomar qualquer atitude de represlia contra a pobre Hortncia, serei obrigada a cortar sua mesada ? que  suficientemente generosa para que voc no fique 
roubando o dinheiro do po! Estou muito decepcionada. E o emprego que voc procura h um ano?
       Sua me
       
       Hortncia
       O dinheiro est na compoteira. Se no estiver, voc tem a minha autorizao para exigi-lo do Eduardo. No tenha medo dele, se ele tomar qualquer atitude agressiva 
me comunique que eu me entendo com ele.
       Lurdes
       
       Dona Lurdes
       O dinheiro no estava na compoteira. Entrei no quarto para reclamar do seu Eduardo. Conversamos muito. Ele devolveu o dinheiro. Ele  um bom rapaz. A senhora 
no deve ficar braba com ele. Obrigada.
       Hortncia.
       
       Mame:
       Estou regenerado. Renunciei para sempre ao dinheiro do po, mesmo que para isso tenha que sacrificar a loteca de todas as semanas, e os meus sonhos de riqueza. 
Hortncia me convenceu a abandonar o caminho do mal. Que moa extraordinria! E sabe que at que no  feia? J combinamos que todas as manhs ela deve entrar no 
quarto e me acordar para um papo inspiracional. E devo tudo a senhora. Obrigado.
       Edu, recuperado para o bem.
       
       Hortncia
       Voc est despedida. O dinheiro do ms est comigo, peo que passe na repartio para receber. Obrigada.
       Lurdes.
       
       
       
       
       
    Jantar
       
       
       ? O cardpio, por favor.
       ? Aqui est.
       ? Obrigado. Acho que vou comear com um... Sim, com o salmo.
       ? O salmo  importado, cavalheiro.
       ? Eu sei que  importado. No faz mal. Pode trazer.
       ? Ns no temos mais nada importado. Com a taxao sobre o suprfluo, ficou muito caro. No compensa.
       ? Bom, ento traga um coquetel de camares.
       ? No servimos mais camaro. Com a poluio da gua, ficou muito perigoso. No servimos mais nada do mar.
       ? Nesse caso, quer dizer que eu no posso pedir nem ostras, nem casquinha de siri...
       ? Pedir o senhor pode. Ns  que no podemos servir porque no tem.
       ? Est bem. Esquece a entrada. Vamos logo para o prato principal. Quero um peixe a... Esqueci. Peixe tambm  do mar.
       ? Pode ser peixe de rio.
       ?  mesmo. Ento me faa um peixe de rio...
       ? Peixe de rio tambm no tem. No se encontra mais peixe em rio. Se encontra de tudo nos rios, menos peixe.
       ? Est bem. Ento um fil com...
       ? No tem carne. Estamos na entressafra e o estoque acabou.
       ? Pode ser carne de porco.
       ? O qu?! E a peste suna?
       ? Frango.
      ? No tem. Compramos de um avirio paulista e houve um problema no transporte. 
      ? Ovo, ento, tambm...
       ? Tambm no.
       ? Est bem. Arroz com feijo e pronto.
       ? Feijo, nem pensar.
       ? E arroz?
       ? A safra foi ruim. No tem. 
       ? Uma salada de verduras.
       ? Tudo envenenado com pesticida. No servimos mais.
       ? Um pedao de po e um copo de gua!
       ? No tem po. Com a seca, a safra de trigo, este ano foi pssima. E a gua, francamente, anda com um aspecto meio esquisito...
       ? Batata! Meu Deus, uma simples batata! No pode existir crise na batata tambm!
       ? O senhor prefere fritas, saute, cozidas... 
       ? Fritas! Um grande prato de batatas fritas!
       ? Perfeitamente.
       Dois minutos depois:
       ? Infelizmente, as suas batatas...
       ? No v me dizer que a safra da batata tambm foi um fracasso.
       ? No senhor.
       ? As batatas esto envenenadas?
       ? No senhor.
       ? O intermedirio sonegou?
       ? No senhor.
       ? Ento? E as minhas batatas?
       ? Estamos em falta.
       
       
       
       
       
    A descoberta
       
       
       ? Papai!
       ? Meu filho. D um abrao. H quanto tempo...
       ? Quando foi que o senhor chegou?
       ? Agora h pouco. A empregada abriu a porta. Quando soube que eu era seu pai mandou entrar, me serviu cafezinho. Alis, essa empregada, no sei no.
       ? Por qu?
       ? Voc, um rapaz solteiro, num apartamento sozinho, com uma empregada assim...
       ? Ela s vem durante o dia. Quase no nos encontramos.
       ? Voc parece timo, meu filho.
       ? Estou muito bem.
       ? Esperei encontrar voc bem mais magro...
       ? No, estou muito bem. E a mame, o pessoal l em casa?
       ? Tudo bem. Sua me lhe mandou cuecas e goiabada.
       ? timo. Mas por que o senhor no me avisou que vinha?
       ? Quis fazer uma surpresa.
       ? E fez mesmo. Nunca que eu esperava ver o senhor aqui.
       ? Pois at parece que esperava. Este apartamento bem arrumado, livros por toda parte... Eu pensei que fosse entrar aqui tropeando em mulheres.
       O que  isso, papai...
       ? , num tapete de seios e ndegas. Do jeito, que est, at parece que voc passa todo o tempo estudando. Aposto que, atrs dos livros, tem mulher. Hein? 
Hein?
       ? Ora, papai...
       ? Aquela estante ali , na verdade, uma porta secreta para o teu harm particular. A gente aperta uma lombada e aparece a Rose di Primo.  ou no ? Onde 
 que elas esto?
       ? Quem papai?
       ? As mulheres, rapaz, as mulheres.
       ? Aqui no tem mulher, papai. Quer dizer, a esta hora no.
       ? Ah, ento elas tm hora para chegar? Daqui a pouco chega o turno da noite,  isso? Sim, porque pelas suas cartas eu entendi que era mulher dia e noite, 
sem parar. Horrio integral .
       ? No, no. Para falar a verdade...
       ? No tem uma bebida a para o seu velho? Quero estar preparado para quando elas chegarem.
       ? Papai, o senhor no est falando srio.
       ? Como no? Eu no estou pagando por tudo isto, pelo apartamento, pelas suas roupas, pelas boates, pelos presentes para as suas mulheres, pela aparelhagem 
de som, por tudo? Quero aproveitar um pouco tambm, ora. Pensando bem, eu ainda no vi a tal aparelhagem de som que voc falou na sua carta. A no ser que esteja 
disfarada atrs de outra estante de livros.
       ? Papai...
       ? E a minha bebida?
       ? Bebida. Pois . Acho que s tem guaran.
       ? O qu? O bar deste apartamento foi estocado ? e muito bem estocado, segundo as suas cartas ? com o meu dinheiro, rapaz. Alis, tambm no vi bar nenhum 
por aqui. Onde est o usque estrangeiro?
       ? Papai, as minhas cartas...
       ? No se preocupe. Sua me no viu nenhuma. No foi fcil, mas consegui esconder todas dela. Por falar nisso, ela mandou reclamar que voc no escreve nunca.
       ? Eu exagerei um pouco nas minhas cartas.
       ? Como, exagerou?
       ? O dinheiro que eu mandava pedir para comprar presentes para as mulheres...
       ? Sim?
       ? Era para comprar livros de estudo, para mim.
       ? Meu filho. No!
       ? Era, papai. Menti nas minhas cartas.
       ? E o dinheiro para as noitadas em boates?
       ? Gastei em material de pesquisa.
       ? Meu Deus. Voc quer dizer que o dinheiro que eu tenho mandado todos os meses, muitas vezes com sacrifcio...
       ? Est indo todo para a Universidade e para material didtico.
       ? No acredito. Voc no faria isso com seu pai.
       ? Papai...
       ? E pensar que eu mostrava suas cartas para os amigos, com orgulho... Aquela que voc mandou dizendo que ia sair com a Sandra Brea e precisava de...
       ? O dinheiro foi para comprar um livro estrangeiro.
       ? E aquele aborto que voc precisava pagar com urgncia?
       ? Nunca houve aborto nenhum. Tudo mentira.
       ? Meu filho, que decepo...
       ? Papai... Papai, voc est bem? Papai! Dona Zulmira, venha ligeiro!
       ? Que foi?
       ? Traga um copo d'gua, rpido.
       ? Pode ser um refrigerante, meu filho.
       ? Um guaran, rpido!
       ? Mas no tem guaran.
       ? NEM GUARAN?!
       ? Calma, papai. Traga a gua, dona Zulmira.
       ? E essa bruxa velha que voc tem em casa, meu filho. Pelo menos uma empregada bonitinha voc podia ter...
       ? Aqui est a gua, doutor.
       ? Obrigado.
       ? Olhe, o senhor no precisa se preocupar com este seu filho, doutor. Cuido dele como se fosse um filho. Ele  um santo!
       ? Aahnn...
       ? Obrigado, Dona Zulmira. Pode ir.
       ? Meu filho, e a aparelhagem de som? O dinheiro que eu mandei para a aparelhagem de som acoplada com o sistema de luz indireta e pisca-pisca?
       ? Foi para comprar um microscpio, papai.
       ? AAHNNN!
       
       
       
       
       
    Terror
       
       
       O pai volta para a cama.
       ? Que imaginao tem esse guri...
       ? O que foi desta vez? ? pergunta a mulher, sonolenta.
       ? Ele queria ir ao banheiro fazer xixi, mas tinha medo do polvo.
       ? Polvo?
       ? Ele diz que tem um polvo embaixo da cama. Assim que ele bota o p no cho, o polvo pega a perna dele com um tentculo. At me descreveu como  o tentculo. 
Frio, pegajoso, gosmento...
       ? Esse menino...
       ? Fiz ele olhar embaixo da cama para ver que no tinha polvo nenhum. Mesmo assim, quando voltou do banheiro ele deu um pulo do meio do quarto para cima da 
cama. Seno o polvo pegava o p dele. Mas acho que esta noite ele no vai incomodar mais.
       ? Voc bateu nele? Olha o que disse a psicloga...
       ? No bati. S disse que se ele no ficasse quieto, o Bicho Papo vinha pegar.
       ? O qu?! Um menino com a imaginao dele e voc ainda fala em Bicho Papo! A psicloga disse claramente...
       ? Pois eu fui criado ouvindo histrias do Bicho Papo. Me ameaavam com o homem do saco se eu no comesse tudo, com o boi da cara preta se eu no dormisse 
cedo... E aqui estou eu, um homem normal, sem traumas. Alis, no meu tempo nem existia a palavra trauma.
       Do quarto do guri vem uma voz chorosa.
       ? Me...
       ? No responde que ele desiste.
       ? Me...
       ? A psicloga disse que era para atender sempre que ele chamasse.
       ? Ento vai voc. Ele est chamando "me".
       ? Vai voc.
       ? Desta cama eu no deso.
       ? Est com medo do polvo?
       ? No seja boba. Eu...
       O guri entra correndo no quarto. Est apavorado.
       ? O BICHO PAPO QUER ME PEGAR!
       ? Volte j para a sua cama! ? diz a me. Mas o guri j mergulhou entre os dois. S bota a cabea para fora das cobertas para descrever o monstro...
       ? Ele  enorme. Cabeludo. Tem dois olhos grandes e um buraco vermelho e molhado no meio da cara. Arrasta os ps no cho.
       ? Viu o que voc fez? ? diz a mulher para o marido. Mas o marido no a ouve. Est com a ateno voltada para o corredor. E os seus olhos se arregalam. A mulher 
tambm pra de falar quando escuta o que o marido est escutando. O rudo de ps se arrastando no cho. Ps cabeludos.
       ? Fecha a porta depressa! ? grita a mulher.
       ? Ele quer me pegar! ? grita o filho.
       O Bicho Papo aparece na porta. Tem o tamanho de um gorila. Os olhos grandes e injetados. Em vez de boca, um buraco carnudo no meio da cara com duas fileiras 
de dentes afiados em cima e duas embaixo. Aproxima-se lentamente da cama, arrastando os ps. A me desmaia. O pai ergue-se na cama e achata-se contra a parede. No 
consegue gritar.
       O Bicho Papo arranca a criana debaixo das cobertas e engole, com pijama e tudo. Depois sai, pesadamente, pela porta.
       Meia hora depois a me recobra os sentidos. O marido est sentado na beira da cama, mas com os ps recolhidos sob o corpo. Sacode a cabea e no pra de repetir: 
"Eu avisei... Eu avisei..."
       A me s tem uma preocupao:
       ? O que  que eu vou dizer para a psicloga?
       
       
       
       
       
    A sesso
       
       
       A sesso est indo bem. A mdium est em profunda concentrao, de olhos fechados. Subitamente, abre a boca, como que preparando-se para falar. A viva inclina-se 
na cadeira, mal podendo conter a emoo.  a primeira vez que entrara em contato com o marido desde a sua morte. A mdium fala:
       ? Ele est aqui.
       A viva estremece.
       ? Est perguntando se voc est bem.
       ? Estou. Estou! ? A resposta da viva  quase um soluo.
       ? Ele quer saber se a Jandira est bem. A viva pra de chorar.
       ? Quem?
       ? A Jandira. 
       A viva est confusa.
       ? No... no sei quem .
       A mdium concentra-se mais. Aperta as tmporas com as pontas dos dedos. Depois diz:
       ? Jacira?
       ? Tambm no.
       ? Dejanira?
       ? Tambm no. Quem sabe...
       A mdium faz um gesto, pedindo silncio. Depois aperta mais as tmporas.
       ? O nome do su marido era Jander Picuim?
       ? No.
       ? Ento foi engano...
       A sesso continua. A viva encosta-se na cadeira, nervosamente. A mdium agora tapa os olhos com as mos. Lentamente, a sua cabea inclina-se para trs. O 
silncio  como uma terceira pessoa na sala. A viva no consegue parar de tremer. Finalmente, a mdium fala outra vez:
       ? Ele est aqui.
       ? Ai meu Deus!
       ? Diz que est em paz, que voc no precisa se preocupar.
       ? Minha Virgem Santssima.
       ? Pede notcias do... No consigo entender... do... A mdium abre os olhos e encara a viva antes de dizer o nome, sem muita convico:
       ? Rubio?
       ? No conheo
       A mdium suspira e fecha os olhos outra vez.
       ? Foi embora. No devia ser ele. Est difcil.
       O silncio volta a dominar a sala. A mdium agora aperta os olhos. Comea a sacudir a cabea de um lado para o outro, com cada vez mais violncia.
       ? S pego linha cruzada! ? exclama, impaciente. A viva levanta-se, assustada. Quer desistir de tudo.
       ? E se a gente tentasse outra vez alguma outra hora? 
       A mdium continua de olhos fechados, mas faz que sim com a cabea.
       ? Acho melhor. Hoje no se consegue mais nada.
       Ento, retesa-se na cadeira.
       ? Espere!
       ? O que foi?
       A mdium aperta mais os olhos. Abre e fecha a boca repetidamente. A ligao no est boa. Por fim:
       ?  o Luiz XVI!
       ? O qu?!
       ? O Luiz XVI! Entrei em contato com o Luiz XVI! Voc no tem nada a dizer para o Luiz XVI? Aproveita. O preo  o mesmo!
       A viva no sabe o que dizer.
       
       
       
       
       
    Datas, datas
       
       
       O calendrio manda em ns. Domina as nossas vidas com uma suave tirania que no  menos tirnica por ser suave, e necessria. Precisamos saber que hoje  
domingo e no se trabalha e que amanh  segunda-feira e se trabalha (contra a vontade). Convencionou-se que este dia  de Natal e aquele  da Ptria, aquele outro 
 de carnaval e o outro  de mortificao e ressaca. Organizamos os nossos dias em datas com a iluso que assim estamos organizando, de alguma maneira, o Universo. 
O primeiro ato racional de Robinson Cruso na sua ilha foi marcar a passagem dos dias no tronco de uma rvore. S ento, situado nas suas datas, partiu para pr 
ordem na sua solido e tratar de sobreviver. O nosso sonho de fugir do relgio e dos dias contados ? principalmente das datas de vencimento ?  irrealizvel. Nenhum 
homem pode viver sem as suas coordenadas no tempo. O completo homem moderno exige, no seu pulso, no apenas a hora exata como o dia da semana e do ms. Alguns relgios 
j trazem at o ano para uma segurana extra. O homem quer olhar para o seu relgio e saber: aqui estou eu, nesta hora, neste dia, neste minuto, vivo, consciente, 
ativo e, meu Deus, atrasado para o dentista.
       O calendrio funciona um pouco como o sinal de trnsito, que nos faz andar, parar, esperar e obedecer contrafeitos para que, afinal, a vida funcione. O sinal 
de trnsito  repressivo. O sinal vermelho  uma violncia contra o direito de ir do cidado. Mas o cidado que se rebela contra o sinal vermelho no trnsito pode 
se ver, subitamente, em outro trnsito, desta para melhor. Da mesma maneira, o calendrio nos tiraniza para o nosso bem. H os que se rebelam contra ele, e vivem 
pelas suas datas particulares. Fazem carnaval o ano inteiro, Reveillon todos os sbados ou abstinncia permanente. Mas estou falando de voc e eu. Aceitamos as convenes 
do calendrio como aceitamos todas as outras regras do convvio humano, mesmo as irracionais. Desconfiamos dessas datas artificialmente criadas para estimular o 
comrcio ? dias da Me, do Pai, dos Namorados, da Criana, Disto e Daquilo ? mas temos que reconhecer que tambm na nossa vida afetiva  bom saber, de vez em quando, 
onde estamos. Na sua ilha deserta, Robinson determinou que um dia seria o de Natal, mesmo que no fosse o certo. Ele no precisava exatamente da data, precisava 
do sentimento do Natal. Pelo menos uma vez por ano. Os calendrios tambm servem para organizar um sentimento comum, uma emoo compartilhada. No importa que suas 
datas sejam uma imposio lojista. O que importa  o sentimento.
       Na nossa casa, que no  uma casa religiosa, certas datas so observadas religiosamente. No Natal nos reunimos para trocar presentes, comer e comemorar, no 
o remoto mistrio da Natividade, mas o milagre de estarmos juntos. Deixamos para abrir a champanha ? e servir a lentilha ?  meia-noite em ponto do dia 31, no por 
superstio, mas porque, que diabo, at agora tem dado sorte. Na mesma, hora, em toda a cidade, milhares de pessoas esto fazendo a mesma coisa. Emoo compartilhada. 
Nada de mal.
       Certamente no precisaramos de um dia dos Pais para lembrar o pai morto ou festejar o pai vivo. Mas se a evocao do pai morto  uma cerimnia diria e interior, 
nada impede que a data seja aproveitada para dizer ao pai que voc tem em casa o que pensa dele. Diga-o com ironia. D uma carteira maior para ele nunca mais alegar 
que no tem de onde tirar o dinheiro na hora de pagar a mesada. Diga-o da maneira tradicional, com um par de meias ou um jogo de lenos, exatamente como no ano passado. 
Diga-o com originalidade ? o que elimina a gravata, o cinto, o cachimbo e os chinelos e o livro que ele nunca vai ler. Mas diga.
       Ensinei aos meus filhos que estas coisas no tm importncia, que temos que aceitar as convenes do calendrio como aceitamos as outras regras do convvio 
humano, etc, que o importante  o sentimento e no o presente, etc. etc. Mas confesso que ficarei de olho aceso at o fim do dia, na secreta esperana do pacote.
       Pode ser um jogo de leno.
       
       
       
       
       
    Ed Mort vai longe
       
       
       Mort. Ed Mort. Detetive particular.  o que est escrito na plaqueta. Meu escritrio fica numa galeria de Copacabana. Entre um fotgrafo que anuncia "Fazemos 
os maiores 3 x 4 da praa" e uma escola de cabeleireiros. Lugar perigoso. Aqui ningum diz mais "Isto  um assalto". Diz " outro". O nmero de baratas na minha 
sala aumentou. Deve ser o xodo rural. Elas agora me proibiram de entrar na sala. Fico ao lado de fora para interceptar a clientela. Fui assaltado cinco vezes em 
vinte minutos. Sempre pela mesma pessoa. Toninho "Mau Fisionomista" Aguiar. No fim ele me marcou com um "x" na testa para no se enganar mais. Com canivete. Mort. 
Ed Mort. Est na plaqueta.
       Eu estava lendo meu jornal favorito ? o JB de 22 de dezembro de 1976 ? encostado na porta, quando a avistei. Custei a acreditar que aquilo que ela estava 
fazendo com o corpo se chamava caminhar. Tinha os seios como eu gosto, um de cada lado. Os cabelos soltos ondulavam ao vento. O que era estranho, porque no estava 
ventando. Boca carnuda, e a carne era de primeira. Vinha na minha direo. Despi-a, lentamente, com os olhos. Estava tendo um pouco de dificuldade com o feixe do 
suti quando ela parou na minha frente. Exclamou:
       ?  voc!
       Com a surpresa, atirei a cabea para trs e quebrei a plaqueta. Depois, recuperei minha presena de esprito. Com alguma astcia, respondi:
       ? Depende.
       ? Disseram-me que ele teria uma marca na testa. Ento era isso.
       ? Ele quem?
       ? Voc no sabe quem voc ?
       ? No sei se eu sou quem voc pensa que eu penso que voc pensa que que eu sou.
       ? Isso no faz sentido.
       ? Eu no escrevo os dilogos, boneca. S estou no mundo pelo cach. O que  que uma moa como voc faz numa galeria como esta, alm de tirar a minha respirao?
       ? Estou procurando um detetive particular. Mort. Ed Mort.
       ? Um bacana? Sorri para o lado? Alguma coisa do Alain Delon depois de um tratamento com hormnios? Duro, mas sentimental e algo filosfico?
       ? No sei. No o conheo.
       ? Deve ser ele. No est. Vamos tomar um drinque!. 
       Ela comeou a recusar, mas olhou para o "x" na minha testa e resolveu me seguir. Fomos at a lanchonete onde, um ms antes, um fiscal da Sade Pblica provara 
um ovo duro e cara morto sobre o balco. O fiscal continuava l. O cheiro da fritura disfarava o cheiro do cadver. Isso no era problema. Mas o fiscal e Toninho 
"Mau Fisionomista" Aguiar ocupavam as duas nicas banquetas vagas. Toninho levantou-se, cavalheirescamente, para assaltar minha acompanhante mas eu fiz sinal que 
ela estava comigo e ele sentou outra vez. Ela pediu um Alexander e eu pedi um Martini doce, para impressionar. O portugus nos serviu dois lisos de uma garrafa com 
uma cobra dentro. Mort. Ed Mort. Estava na plaqueta.
       Ela me contou sua histria. Igual a muitas outras. O marido desaparecera. Ela procurara ajuda com a lder da sua seita.
       ? Seita?
       ? A Nova Igreja do Jesus Baiano.
       ? Continue.
       ? Ns dois pertencemos a mesma seita. Outro dia, ele foi ter uma entrevista particular com a nossa lder. Nunca mais o vi.
       ? Como se chama a lder?
       ? Gioconda, a Sereia do Inamps. .
       ? Nome estranho.
       ? Ela era funcionria do Inamps. Um dia teve uma viso. Pulou o balco e saiu correndo do posto. Disse que recebera ordens do alto para esperar a chegada 
do Jesus Baiano. A fila foi atrs dela e fundaram a seita. Passam o dia inteiro na rodoviria, cuidando da chegada dos nibus do Norte.
       ? Por que seu marido foi se entrevistar com ela?
       ? Logo depois que entramos para a seita ele recebeu uma herana enorme. Uma fortuna. Achou que era um sinal. Foi falar com ela.
       ? Depois que ele desapareceu, voc a procurou?
       ? Procurei. Ela disse que no sabia de nada. A fechou os olhos e teve uma viso. Me mandou procurar pela cidade um homem com uma cruz na testa. Disse que 
ele me levaria ao meu marido. No encontrei ningum com uma cruz na testa e a vi o seu anncio no jornal. Mort. Ed Mort. Detetive particular.
       ? Estava na plaqueta. E ento voc me viu com uma cruz na testa...
       ? Voc  o homem que a nossa lder falou?
       O bar do portugus  o nico lugar da galeria que no tem ratos. Esto em greve contra a m qualidade da comida. Tomei um gole de cachaa para pensar. O estmago 
quis devolver a cachaa mas o esfago se recusou a dar passagem de volta. Onde  que eu estava me metendo? Mas no podia recusar nada quele anjo. Devia ter desconfiado 
quando ela tomou a cachaa de um gole s e ainda se lambeu. Falei:
       ? Sou o homem que voc procurava. Siga-me. 
       Fomos at a rodoviria. A Nova Igreja do Jesus Baiano estava reunida em torno da sua lder. Minha cliente tinha me contado que todos eram obrigados a dar 
dinheiro  lder para entregar ao Jesus Baiano quando ele desembarcasse do nibus. Saltei no meio do grupo e gritei: "Cheguei!".
       ? Quem  voc? ? perguntou a Sereia do Inamps, desconfiada.
       ? Sou o Jesus Baiano! Cheguei de avio.
       Todos se prostraram no cho. A Sereia do Inamps me puxou para um lado e quis saber: "Qual?" Propus um acordo. Eu no estragaria o seu pequeno negcio se 
ela devolvesse o marido da minha cliente. Intacto, sem nem um cruzeiro a menos. Ela pensou um pouco e depois concordou. Deu um endereo onde ele poderia ser encontrado. 
Na certa de robe-de-chambre e aparando as unhas, o safado. Levei minha cliente l, depois de anunciar  seita que tinha havido um engano. O verdadeiro Jesus Baiano 
chegaria pelo nibus noturno.
       Marido e mulher se reencontraram. Ele se explicou e ela o perdoou. S no perdoou a mim por ter-me feito passar por outro. No quis me pagar e ainda ameaou 
me bater. Estou de volta na galeria. As baratas no deixam eu entrar na minha sala. Algum chegou por trs e me encostou uma faca nas costas.
       ? Passa toda a grana.
       ? Sou eu, Toninho! Mort. Ed Mort. Onde diabo est a plaqueta?
       
* * *
       
       Os contos "O dcimo primeiro mandamento" e "A terra rida" foram publicados originalmente na revista "Playboy", edies de agosto de 77 e agosto de 78, respectivamente, 
e so reproduzidos com autorizao da Editora Abril Ltda.
       Os outros contos e crnicas foram publicados nos jornais "Folha da Manh" e "Zero Hora", na revista "Carrinho" ou na "Revista do Domingo" do "Jornal do Brasil".
